CINERAMA

cinema sem frescura

Arquivos Mensais: outubro 2011

Orgia ou O Homem Que Deu Cria

por Samuel Lobo

      “Só me interessa o que não é meu”. A frase, escrita por Oswald de Andrade em 1928 em seu Manifesto Antropófago, descreve certeiramente a inquietação que perturbava a esfera artística brasileira em fins da década de 1960. Nas artes plásticas, Lygia Clark e Helio Oiticica propunham uma ressignificação da relação entre corpo e objeto; na literatura, José Agrippino de Paula espiava a transa entre Marilyn Monroe e Marlon Brando e construía uma epopeia genuinamente irônica, com aviões que sobrevoavam mares de gelatina verde; na música, a Tropicália mandava aquele abraço para a bossa nova e reorientava o carnaval, enquanto o cinema explodia as estruturas e matava à navalhadas a família brasileira. O horror. E quem disse que não há beleza no horror?

      Em meio a esse cenário nervoso, asfixiado por um governo militar que não permitia espaços e dopado por uma economia em ascensão e pela conquista do tricampeonato mundial de futebol, surge Orgia ou O Homem Que Deu Cria, único filme do cineasta e escritor João Silvério Trevisan, realizado em 1970. Já a partir do título se instaura uma provocação: em uma orgia não há regras nem limitações, tudo é permitido. Portanto, indiretamente, o que o título sugere é que estamos diante de uma obra livre, desimpedida, um cinema sem limites e contra todas as catequeses.

      Praticamente não há história. O enredo inicia-se com um homem do interior que assassina o pai e parte rumo à cidade grande. No meio do caminho vários personagens quixotescos se juntam a ele e compõem uma fauna riquíssima, tipicamente brasileira, onde convivem travestis, aleijados, caipiras, um cangaceiro grávido da Volkswagen e um anjo de asa quebrada, formando um microcosmo peculiar e ilustrativo da nossa miscigenação social em um momento de desespero. Aqui, para o bem e para o mal, tudo termina em carnaval.

      O filme é um ataque frontal a todas as estruturas pré-estabelecidas que paralisam o poder de criação e ao reducionismo que simplifica nossas complexidades. Até mesmo o próprio Cinema Marginal, ao qual se alinha em agonia e desejo de ruptura, é tratado como um obstáculo a ser superado. Logo no início, há uma cena em que Ozualdo Candeias, autor de A Margem (1967), considerado o primeiro filme de estética marginal, aparece sendo amarrado e morto pelo próprio filho. O novo Édipo, sem arrependimentos, livre.

      A posição ofensiva atravessa todos os aspectos da narrativa. Os atores estão em um transe que não cessa, gritam, correm, não respeitam nem mesmo a fronteira do quadro, num desarranjo total do corpo. Filmado inteiramente durante o dia, à luz do Sol, o filme encontra na contundência o tom ideal para romper com as tradições: há citações a Deus e o Diabo na Terra do Sol, a Macunaíma e a O Bandido da Luz Vermelha, todas subvertidas e reencarnadas sob o espírito do deboche e da avacalhação. A antropofagia é um elemento recorrente ao longo do filme, e o próprio desfecho, com índios comendo a criança que nasce do cangaceiro, já sinaliza um momento posterior ao do conceito lançado por Oswald: nossa fome é tanta que devemos devorar também a nós mesmos.

      Devido ao atrevimento de seu discurso e à sua encenação violenta, Orgia ou O Homem Que Deu Cria foi censurado pelos militares e nunca chegou a ser liberado. Ao trazê-lo novamente à tona, o Cinerama tem o intuito de promover o acesso a uma obra obscura do nosso cinema, instigar o espírito e acrescentar novos temperos a um farto banquete de pratos exóticos.

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Sessão Cinerama: “Orgia ou O Homem Que Deu Cria” (1970)

O Cinerama convida a todos para revisitar um clássico obscuro do cinema marginal brasileiro, “Orgia ou O Homem Que Deu Cria”, único filme do cineasta e escritor João Silvério Trevisan, realizado em 1970. Extremamente anárquico e debochado, o filme devora com um ardor quase canibal diversas influências, idéias, correntes, pensamentos, posturas e gêneros a fim de se afirmar como uma obra pautada pela originalidade e irreverência, diferente até mesmo dos filmes com os quais se alinhava. Um dos seus pontos altos é a participação do crítico Jean-Claude Bernadet, nu em plena selva, representando o intelectual incapaz de se comunicar. A sessão será aberta pelo curta-metragem “Alguém Tem Que Honrar Essa Derrota”, de Leonardo Esteves, que propõe um diálogo com a estética do que se convencionou a chamar de Cinema Marginal. Após a exibição haverá um bate-papo com a professora Guiomar Ramos, autora do livro “Um cinema brasileiro antropofágico?”. A entrada, como sempre, é grátis. Apareça!

ORGIA OU O HOMEM QUE DEU CRIA
Diretor: João Silvério Trevisan
Sinopse: No único longa-metragem do cineasta, acompanhamos a formação de um grupo de pessoas que busca seu país. De forma carnavalesca, com personagens alegóricos, ligado às lições tropicalistas, o filme aborda tanto a reorientação ideológica do cinema novo em sua aproximação com o Estado autoritário quanto o ambiente de asfixia (censura, repressão) e breve euforia (milagre econômico, Copa do Mundo) que dominava o Brasil da época.

ALGUÉM TEM QUE HONRAR ESSA DERROTA (curta-metragem)
Diretor: Leonardo Esteves
Sinopse: Um filme rodado no carnaval! Sem roteiro, sem claquete e sem fotômetro.

Após a sessão haverá um bate-papo com a professora de linguagem audiovisual Guiomar Ramos.

A entrada é grátis, chega mais!

Local: Auditório do CFCH – Campus da Praia Vermelha / UFRJ
Hora: 19:00

Ainda “Weekend”

Mariana de Moraes, aluna da ECO, foi à sessão Cinerama e ficou incomodada com alguns pontos trabalhados por Godard em “Weekend“. Leia:

“Tava pensando sobre o filme ainda, o que é ótimo no mundo do instantâneo e do efêmero, e analisei melhor o que de fato me incomodou. As discussões que ele incita são superficiais pros dias de hoje. Consigo imaginar o quanto certos públicos à época se sentiriam agredidos em vários aspectos, as revoltas que foram geradas e as reflexões as quais se chegaram, não exclusivamente, mas principalmente pelo contexto no qual o filme se inseriu.

Mas hoje… hoje ele me parece só mais uma obra pós-moderna que se pretende a muito, mas que pouco atinge. As questões que ali estão presentes já são quase senso comum em um meio minimamente politizado, parecem cuspidas com o mesmo descomprometimento com que tantas pessoas hoje o fazem em conversas, palestras, quase como um praguejar sem maior embasamento: “puta mundo escroto, viu?”. Burguesia x proletariado, sociedade de consumo, individualismo, violência gratuita, sim.

Ideias presentes no filme e termos comuns aos meios intelectuais, principalmente, mas e daí? Cadê a consciência de classe, as propostas contrárias ao capitalismo, o intuito de transformação? À época, essas questões estavam em voga, portanto, é provável que pudessem ficar subentendidas ou mesmo ser omitidas, ainda sim, estariam presentes no debate. Mas hoje, as palavras de ordem soltas em meio ao surreal me parecem mais reclamações do que qualquer outra coisa, salvos alguns poucos momentos do filme. Eu, como descontente contemporânea de debates e revoltas apáticas de uma juventude em grande parte despolitizada, preciso exigir mais de uma crítica.”

E você, achou o quê? Use a caixa de comentários acima para deixar seu pitaco!

“Weekend”, de Jean-Luc Godard (1967)

por Leandro Rodrigues

        O prenúncio do apocalipse. Uma visão do inferno pintada por carros tombados em chamas, tiros, gritos, sangue e corpos estirados. O homem que mudou definitivamente a forma de se fazer filmes profetiza: “Nesses tempos modernos, a Era Gramatical chegou ao fim e inicia-se a era da parafernália, especialmente no cinema”.

            O último filme da primeira fase de Godard é uma crítica clara aos hábitos da burguesia francesa e dialoga com uma época de efeverscência política que culminaria no fatídico maio de 68. Não à toa, algumas exibições do filme geraram confusões e pancadarias nas salas de exibições francesas. O filme parece ser resultado e representação de um mundo que estava prestes a explodir.

        O casal protagonista, Roland (Jean Yanne) e Corinne (Mireille Darc), que encarnam o egoísmo e a futilidade consumista da sociedade burguesa, desejam a todo custo a morte do pai da personagem e o embolso de sua herança. Partem então em um “road movie do pesadelo” em que se deparam com situações absurdas, personagens inusitados – um deles, o Anjo Exterminador, auto-intitulado Joseph Balsamo, filho de Deus  com  Alexandre Dumas (!), que declara: “…o cristianismo é a recusa do auto-conhecimento, é a morte da linguagem!”  –  e que começa com um plano-sequência magistral de um travelling que acompanha um congestionamento quilométrico.

          Uma estrada que parece não ter fim, não levar a lugar algum, a representação do colapso. O simbolo maior do fetichismo consumista, o automóvel, se multiplica tombado pelo caminho, em chamas, sobre corpos ensanguentados. Godard parece apontar a burguesia e seu apego material como um mal  que conduziria a humanidade irreversivelmente ao apocalípse. Um mal a ser combatido.

       Em Weekend, temos um Godard mais político que em seus filmes anteriores, apontando para  uma radicalização política e estética que  desembocaria em sua filiação ao grupo tcheco Dziga Vertov, em 1968, e sua fase de filmes políticos. A militância de esquerda, o conflito árabe-israelense, o imperialismo das grandes companhias de petróleo e a guerrilha parecem saltar da realidade e se transformam em pólvora na tela, compondo uma mise-en-scéne nervosa, conflitante, que só cessa para um outro plano-sequência magistral em que um pianista executa uma peça de Mozart ao piano e discute seus resquícios perdidos na música moderna dos Beatles e dos Rolling Stones.

       Passados mais de 40 anos, certamente nossas questões são diferentes daquelas que tremeram o mundo nos fins da década de 60. A superação dos ideologismos, um cenário que divide a apatia política  da juventude com o surgimento de novas formas de organização e revindicação que pipocam ao redor do mundo, da Líbia a Wall Street, do Irã ao Chile, da Espanha ao Ceará. Inteligência coletiva? Pós- rancor? Ciberativismo? Coletivos? Tudo ainda nos parece um pouco nebuloso, mas o momento oportuno para o resgate de uma obra de tamanha força.

        E 40 anos depois o velho Jean-Luc, aos 81 anos, se prepara para mais uma vez anunciar  o fim da linguagem  – e em 3D. Aguardemos.

Sessão Cinerama

No próximo dia 10 de outubro, segunda-feira, às 19h, o Cinerama reaviva suas atividades cineclubistas com duas exibições de peso: em tempos de ocupação de Wall Street e protestos no Chile e no Ceará, “Weekend” (1967), de Jean-Luc Godard, o apocalíptico último filme da primeira fase do cineasta francês será exibido no auditório do CFCH, no campus da Praia Vermelha, acompanhado do curta-metragem “Fantasmas” (2010), de André Novais…. Após as sessões teremos um bate papo com Paulo Oneto, professor de filosofia que estuda as relações entre cinema, linguagem e política. O Cinerama está de volta e convida a todos para enriquecer ainda mais este momento de grande importância pro nosso cineclube. Apareçam!

WEEKEND
Sinopse: Visão particular do cataclisma da burguesia a cargo do polêmico e genial diretor francês Jean-Luc Godard . Uma fábula apocalítica, desencantada e satírica, definida como uma nova viagem de Gulliver através do colapso da sociedade de consumo, representada num jovem casal de burgueses. Amealhou de forma geral excelentes críticas, que em qualquer caso avisavam: “puro território Godardiano”. Sem dúvida, um filme diferente, como de costume, quebrando todos os formatos pré-estabelecidos por Hollywood e o cinema europeu. Intrigante e fundamental em sua filmografia.
Direção: Jean-Luc Godard
Duração: 105min
Ano: 1967
País: Françal

FANTASMAS
Sinopse: Fantasmas na esquina, na varanda…
Direção: André Novais Oliveira
Duração: 11min
Ano: 2009
País: Brasil

Após as sessões haverá um bate papo com o professor de filosofia Paulo Oneto.

A entrada é gratuita, compareça!

CineEncontro Festival do Rio

Sucesso de público e de crítica, há oito anos o Cine Encontro leva ao grande público o melhor do cinema de hoje, além da chance imperdível de aprender com diretores, produtores, criticos, roteiristas, fotógrafos e atores, e experts no assunto.

As sessões populares da charmosa Première Brasil chegam ao Pavilhão do Festival, apresentando 18 longas-metragens que compõem um rico panorama do Cinema Brasileiro,

seguidas dos tradicionais debates com os diretores dos filmes e atores como Alessandra Negrini, Dira Paes, Camila Pitanga, Chico Anysio, José Wilker, Lázaro Ramos, Marcelo Yuka, Mariana Lima, Simone Spoladore, Vanessa Gerbelli, entre outros.

 Os filmes nacionais (a maioria) passam no Armazém 6 (Armazém da Utopia) que fica no Cais do Porto, onde vão ter os workshops, os seminários, os debates, e outros eventos promovidos pelo Festival do Rio. No MAM haverá apenas 3 sessões de filmes internacionais.

 No Armazém existe uma sala de exibição especial, onde passarão 18 filmes da Premiére Brasil a preço popular (2 reais).

 O CineEncontro oferece a cada sessão uma cota de ingressos  gratuitos para estudantes/universitarios e professores.

Os interessados deverão enviar um email para cineencontro@festivaldorio.com.br, informando a quantidade de ingressos desejados, o dia e o nome do filme de interesse.

Confira a programação (clique para ampliar):