CINERAMA

cinema sem frescura

Arquivos Mensais: março 2012

Semana Cinerama 2012: sinopses

CYNEMA ANTROPÓFAGO
“Tupi or not tupi, that’s the question”

Como era gostoso o meu francês, Nelson Pereira dos Santos (1970, 83min)
No Brasil de 1554, um aventureiro francês prisioneiro dos Tupinambás escapa da morte graças aos seus conhecimentos de artilharia. Segundo a cultura Tupinambás, é preciso devorar o inimigo para adquirir todos os seus poderes. Enquanto aguarda ser executado, o francês aprende os hábitos dos Tupinambás, se une a uma índia e através dela toma conhecimento de um tesouro enterrado

O vampiro da cinemateca, Jairo Ferreira (1977, 77 min)
Na cidade de São Paulo, entre 1975 e 1977, um jovem jornalista decide romper com as limitações impostas à sua profissão e começå a elaborar o roteiro de um filme. Ele se isola entre quarto paredes e investe furiosamente contra os figurões da cultura de sua época. Sem conseguir crirar um personagem, o jovem entra em crise. Porém, filmando cenas isoladas com amigos e examinando cenas de alguns filmes, ele descobre novas possibilidades de realização. E consegue finalmente inventar personagens.

O bandido da luz vermelha, Rogério Sganzerla (1968, 92 min)
Um assaltante misterioso usa técnicas extravagantes para roubar casas luxuosas de São Paulo. Apelidado pela imprensa de “o bandido da luz vermelha”, invade as casas assobiando canções de Roberto Carlos, traz sempre uma lanterna à mão e conversa longamente com suas vítimas. Debochado e cínico, apresenta uma montagem inovadora e uma linguagem calcada em princípios da antropofagia.
 
CINEMA HOJE
“As ideias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas.”
 
A cidade é uma só?, Adirley Queirós (2011, 73min)
Reflexão sobre os 50 anos de Brasília, tendo como foco a discussão sobre o processo permanente de exclusão territorial e social que uma parcela considerável da população do Distrito Federal e do Entorno sofre, e de como essas pessoas restabelecem a ordem social através do cotidiano.

Riscado, Gustavo Pizzi (2010, 85min)
Bianca é uma atriz cuja carreira ainda não deslanchou. Para se manter ela imita grandes divas do cinema e trabalha divulgando eventos. Sua sorte parece mudar quando consegue o papel principal de uma grande produção internacional. Inspirado por sua personalidade e seu trabalho, o diretor do longa-metragem resolve transformar a protagonista em uma versão da própria Bianca.

Sudoeste, Eduardo Nunes (2011, 100min)
Numa vila isolada do litoral brasileiro onde tudo parece imóvel, Clarice percebe a sua vida durante um único dia, em descompasso com as pessoas que ela encontra e que apenas vivem aquele dia como outro qualquer. Ela tenta entender a sua obscura realidade e o destino das pessoas a sua volta num tempo circular que assombra e desorienta.

FILMES PARA O PRÓXIMO MILÊNIO
“Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

O bravo guerreiro, Gustavo Dahl (1969, 80min)
Jovem deputado da oposição decide mudar para o partido da oposição pensando que só dentro do poder conseguirá fazer alguma coisa pela causa pública. Um cabo eleitoral adverte-o que pelegos tentam tomar o sindicato tendo por motivo um projeto de lei de sua autoria. O deputado vai à Assembléia Geral do sindicato e faz um discurso narrando a sua história política, concluindo que não é mais indicado para defender os sindicalizados. De volta ao lar, encosta o cano de um revólver no céu da boca.

O caso dos irmãos Naves, Luiz Sérgio Person (1969, 92min)
A reconstituição de um caso real, ocorrido no Estado Novo em 1937, na cidade de Araguari (MG). Tudo começa quando um homem foge levando o dinheiro de uma safra de arroz. Os irmãos Naves, sócios do fugitivo, denunciam o caso à polícia. De acusadores passam, no entanto, a réus, por obra e graça do tenente de polícia, que dirige a investigação. Presos e torturados, os Naves são obrigados a confessarem o crime que não cometeram.

Fome de amor, Nelson Pereira dos Santos (1969, 76min)
Casal de brasileiros residente em Nova York decidem voltar ao Brasil para morar na ilha supostamente dele. Porém na ilha mora outro casal, e entre eles nasce uma relação conflituosa e ao mesmo tempo sensual.

O pornógrafo, João Callegaro (1970, 88min)
Ligado à máfia italiana, o paulista Miguel Metralha é contratado para escrever argumentos de histórias pornográficas em uma editora clandestina. Mas um atrito com a dona do negócio gera a falência da empresa e a conseqüente imersão do rapaz e da patroa no mundo do crime, como meio de sobrevivência.

SESSÃO VITRINE
“As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.”
 
Os residentes, Tiago Mata Machado (2010, 120min)
Instalados em uma nova zona autônoma temporária, os residentes passam os seus dias entre pequenos complôs lunáticos, farsas quixotescas e delírios rimbaudianos.

SESSÃO ESPECIAL
“Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.”

Serras da desordem, Andrea Tonacci (2006)
O filme reconstitui a aventura de Carapirú, um índio que vagou durante dez anos pelo Brasil caboclo após escapar de um massacre em sua aldeia. À medida que documentário e ficção se tensionam, o filme reconta de maneira original a grande tragédia que se abateu sobre a população indígena durante o período da modernização conservadora. Uma obra de puro cinema.

CURTA OUTROS TEMPOS
“Só me interessa o que não é meu.”
 
Vadiação, Alexandre Robatto Filho (1954, 8 min)
Alguns homens tocam berimbaus e pandeiros e cantam. Outros se revezam no jogo da capoeira a varias pessoas assistem.

Um dia na rampa, Luiz Paulino dos Santos (1957, 9 min)
Um dia na rampa do mercado modelo de Salvador quando chegavam os saveiros voltando do recôncavo trazendo produtos para comércio na capital.

Histórias em quadrinhos, Rogério Sganzerla e Álvaro de Moya (1969, 10 min)
Documentário que sintetiza a evolução das histórias em quadrinhos, desde Yellow Kid até Spirit.

Uma rua chamada Triumpho, Ozualdo Candeias (1970, 11 min)
A região da Boca do Lixo paulistana e as pessoas do meio cinematográfico que por ali circulavam são registradas em fotografias de autoria do diretor Ozualdo Candeias.

O guru e os guris, Jairo Ferreira (1973, 12 min)
Documentário sobre Maurice Legeard (1922-1997), o mítico fundador do Cinemateca de Santos, e sua paixão pelo cinema. Crítico e realizador, Legeard foi ainda um dos gurus do cineclubismo brasileiro como atividade de vanguarda.

Esta não é a sua vida, Jorge Furtado (1991, 18 min)
Documentário sobre a vida de Noeli Joner Cavalheiro. Noeli mora num subúrbio de Porto Alegre, é dona de casa e tem dois filhos. Nasceu numa cidade do interior, foi pra capital, trabalhou numa padaria, casou. É uma pessoa comum. Mas não existem pessoas comuns.

Ave, Paulo Sacramento (1993, 5 min)
“Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei” (Aleister Crowley)

Noite final menos cinco minutos, Débora Waldman (1994, 10 min)
Enquanto há gasolina um Maverick avança em alta velocidade por estradas vazias.

Trovoada, Carlos Nader (1994, 17 min)
Depoimentos de Bill Viola, Waly Salomão e Antonio Cícero pontuam o vídeo, que trata da sensação muito pessoal de tempo do autor.

Um sol alaranjado, Eduardo Valente (2001, 18 min)
Quatro dias na vida de uma mulher e seu pai.

PRATA DA CASA
“Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval.”

Eu e a loira, Lucas Calmon (2010, 15 min)
Vicente nunca acreditou na história da lendária e mortal Loira do Banheiro, mas o que ele não esperava é que seus caminhos estavam traçados. E não da forma que ele pensava.

Memorial de Francisco, Fernanda Caiado (2011, 18 min)
Fica comigo esta noite.

Adeus, Guru, Daniel Mendonça e Lucas Bueno (2011, 15 min)
O Guru está faminto e precisando de dinheiro. Quando resolve ligar para Flávio, um velho seguidor seu, e arrumar uma grana, o Guru acaba descobrindo que os problemas já não são mais os mesmos de antigamente… e resta saber: onde está a banheira?

Deixo ver a velha chuva, Amanda Seraphico, Maria Del-Vecchio, Arthur Rivelo, Fernanda Novaes, Rafael Spínola, Luiza Junqueira, Lara Mateus e Kevin Rodrigues (2011, 8 min)
Quando a monotonia do cotidiano de um aposentado esbarra com a sensibilidade aguçada pela proximidade com a morte, o que surge é uma nova perspectiva em relação à vida.

Semibreve, Livia Cathiard (2011, 4 min)
“Quem dança em jaula perde seu compasso. Livres encontramos o breve. Livres encontramos o semibreve.”

A bagunça eterna, Clarissa Appelt (2011, 5 min)
Chegou a hora de Pedro arrumar seu quarto depois de alguns anos de bagunça acumulada. Ele começa a guardar suas coisas em caixas, porém a bagunça parece nunca parar de surgir. Enquanto tenta conter a bagunça eterna, Pedro percebe que esta crescendo junto com ela.
 
O quarto conto, Samuel Lobo (2011, 8 min)
Um homem caminha pela cidade. Não é uma noite qualquer.
 
Paradas e Encantarías, André Camargo (2011, 12 min)
Síntese imagética e sonora de um projeto de pesquisa etnográfica que investigou as manifestações culturais tradicionais da Amazônia paraense
 
Fora d’água, Bárbara Bergamaschi (2011, 14 min)
Beatriz é uma jovem solitária que vive com Bóris, seu peixe de estimação. Intrigada com as diferentes pessoas que observa na cidade, resolve realizar uma experiência: cada dia sair de casa fantasiada como uma pessoa diferente.

Ensaio, Bernardo Girauta e Leandro Rodrigues (2012, 18 min)
Um fotógrafo solitário. Uma prostituta. Um dia em Copacabana.
 
COISAS DE AGORA
“A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.”

A amiga americana, Ivo Lopes Araújo e Ricardo Pretti (2009, 19 min)
Paris conhece Thais.

Só mais um filme de amor, Aurélio Aragão (2010, 19 min)
Entre janeiro e julho de 2009, Gabriela e Emanuel estiveram separados. Durante esse período eles trocaram dezenas de vídeos que para eles funcionaram como cartas de amor. Ao longo dos 19 minutos do filme eles tentam recontar essa história.

O último dia, Christopher Faust (2010, 12 min)
Toni irá se mudar. Decide passar seu último dia na cidade bebendo com os amigos de infância.

Lavagem, Shiko (2010, 20 min)
Quando o disco da Xuxa gira ao contrário, não se assuste, muita coisa pode acontecer.

Copyright cops, de Julio Secchin (2011, 6 min)
Um filme sobre direitos autorais, adolescentes e internet.

Jiboia, Rafael Lessa (2011, 17 min)
Consumida pelo desejo, Aurora, uma cabeleireira da Rua Augusta, em São Paulo, aceita fingir ser a mãe de sua amante adolescente, Gracekelly, sem saber que o plano da menina vai colocar à prova seu verdadeiro amor.

Incêndio, Karen Akerman, Miguel Seabra (2011, 23 min)
A melhor aula termina com uma lição.

Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides, Gabriel Martins (2011, 18 min)
Dona Sônia quer vingança.

Quando morremos à noite, Eduardo Morotó (2011, 20 min)
Raúl conhece a menina mais cheia de vida que já encontrou.

Dizem que os cães vêem coisas, de Guto Parente (2012, 12 min)
Um presságio. Fragmento de tempo apenas, porque logo o homem gordo, de ventre imenso, saltou dentro da piscina com o copo de uísque na mão.

Semana Cinerama 2012

“Levei muito tempo para descobrir que o cinema brasileiro e o Brasil são a mesma coisa. Hoje começo a suspeitar que aprender a filmar o Brasil é aprender a fazer o Brasil.” (Gustavo Dahl)

É com todo o prazer do mundo que convidamos a todos para a Semana Cinerama 2012, um evento realizado pelo cineclube Cinerama que apresenta mais de trinta horas de filmes brasileiros, em um período que vai de 1954 até os dias de hoje. Contra todas as elites vegetais, em comunicação com o solo, trazemos uma programação diversificada e pautada pela pluralidade de estilos e ideias, em um momento de grande efervescência na Escola de Comunicação da UFRJ e no cenário cultural brasileiro.

Além dos filmes, a Semana Cinerama pretende estimular a reflexão acerca de questões ligadas à produção audiovisual nacional por meio de encontros com críticos, profissionais e realizadores de diversas gerações, trazendo também para a conversa nossos professores e estudantes, que estarão ativamente convivendo e conflitando com as mais distintas linhas de pensamentos.

Durante os dias 9 a 13 de abril, a Escola de Comunicação da UFRJ vai respirar cinema. Venha purificar os olhos e o espírito no Cinerama. A entrada é gratuita, só chegar!

PROGRAMAÇÃO

Auditório da CPM

Dia 09/04 (segunda-feira)

14h | Os residentes, de Tiago Mata Machado (2010, 120min)
16h | O bravo guerreiro, de Gustavo Dahl (1969, 80min)
18h | A cidade é uma só?, de Adirley Queirós (2011, 73min)
20h | Conversa com Adirley Queirós, Eduardo Valente e Consuelo Lins

Dia 10/04 (terça-feira)

14h | O caso dos irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person (1967, 92min)
16h | Como era gostoso meu francês, de Nelson Pereira dos Santos (1970, 80min)
18h | Curta coisas de agora (curtas recentes)
20h | Conversa com Gabriel Martins (realizador/BH), André Novais (realizador/BH), Christopher Faust (realizador/PR) e Eduardo Morotó (realizador/RJ)

Dia 11/04 (quarta-feira)

14h | Riscado, de Gustavo Pizzi (2010, 85min)
16h | Curta outros tempos (curtas de todas as épocas)
18h | Fome de amor, de Nelson Pereira dos Santos (1969, 76min)
20h | Conversa com Hernani Heffner e Guiomar Ramos sobre Fome de amor

Dia 12/04 (quinta-feira)

14h | O pornógrafo, de João Callegaro (1970, 88min)
16h | Curtas Prata da Casa (produção de alunos da ECO-UFRJ)
18h | O vampiro da cinemateca, de Jairo Ferreira (1977, 77min0
20h | Conversa com Fernando Gerheim, Paulo Oneto e Guiomar Ramos sobre O vampiro da cinemateca

Dia 13/04 (sexta-feira)

14h | O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla (1968, 92min)
16h | Serras da desordem, de Andrea Tonacci (2006, 135min)
18h30 | Sudoeste, de Eduardo Nunes (2011, 100min)
20h15 | Conversa com Eduardo Nunes, Fábio Andrade e Denilson Lopes

Auditório do CFCH – Mesas de reflexão – 18h

Dia 09/04
Distribuição: meios, canais e plataformas para levar mais cinema para mais pessoas
Cavi Borges (produtor, realizador e distribuidor)
Silvia Cruz (Vitrine Filmes)
Talita Arruda (Porta Curtas)
André Gatti (professor, pesquisador e cineclubista)

Dia 10/04
Cosmética da fome, 10 anos depois
Ivana Bentes (professora, pesquisadora e diretora da Escola de Comunicação da UFRJ)
Cezar Migliorin (professor do departamento de cinema da UFF)

Dia 11/04
Produção: o melhor negócio é fazer
Daniela Santos (produtora/RJ)
Ana Bárbara Ramos (realizadora/PB)
Fred Benevides (pesquisador e realizador/CE)
Beatriz Seigner (realizadora/SP)

Dia 12/04
Crítica: pensar o mundo e o cinema a partir de uma folha em branco
José Carlos Avellar (realizador, curador e crítico)
Carlos Alberto Mattos (crítico)
Daniel Caetano (realizador, professor e crítico)

Dia 13/04
O cineasta e o roteirista: dois mundos, um filme
Andrea Tonacci (realizador, fotógrafo e roteirista)
Hilton Lacerda (realizador e roteirista)
Bruno Safadi (realizador e roteirista)

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Estrada para Ythaca

Quatro amigos diretores, quatro personagens, um mito como pano de fundo e um luto por fazer no presente. Estrada Para Ythaca é dirigido e interpretado por Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes. Luiz e Ricardo são irmãos gêmeos; Guto e Pedro, primos. Um filme de família, uma história criada à medida que se fazia, com imagens captadas por uma pequena câmera digital. Cinema, mas também celebração de amizade.

Esse, aliás, é o estímulo propulsor da história. Os personagens são amigos que se reúnem em um bar. Bebem e falam. Resolvem pegar um carro e partir para Ythaca. Para fazer o quê? Talvez buscar uma imagem, algo perdido, um amigo que se foi de maneira prematura.

Esse filme de estrada – literalmente e no título – se faz à medida que as imagens progridem, assim como um romance se escreve palavra após palavra. Há um sentido poético que os guia e estrutura a obra. Por exemplo, não é casual a citação de Vento do Leste, filme de Jean-Luc Godard da sua fase no Grupo Dziga Vertov e no qual aparece Glauber Rocha como ator. Há uma encruzilhada e dois caminhos possíveis. Um, pela direita, que leva ao cinema da aventura; o outro, pela esquerda, que conduz ao cinema do terceiro mundo, “perigoso, divino e maravilhoso”, segundo a música de Caetano Veloso cantada por Gal Costa. Dizem que Godard achou ruim com Glauber por ele ter escolhido esse caminho. Mas, metaforicamente, foi a via adotada por seu cinema, naquela época em que direita e esquerda faziam todo o sentido, um tempo enfeitiçado pela palavra revolução.

Essa citação de cena não aparece por acaso. Ela é um manifesto colocado como sinalização no meio dessa estrada que leva a Ythaca. Fala de uma tomada de posição. Estética em primeiro lugar, de uma geração que encontra suas referências no segundo Glauber, o do exílio, e em seu desafeto e continuador dialético, o “maldito” Rogério Sganzerla.

A essas referências cinematográficas, soma-se aquela ao escritor grego Konstantinos Kavafis e sua Ythaca mítica. A Odisseia é o arquétipo da viagem. Quando Ulisses volta à Ítaca natal não a encontra da mesma forma. A cidade mudou, Penélope não é a mesma e ele mesmo, Ulisses, é diferente do da partida. Tudo flui e altera-se, conforme havia dito aquele outro grego, Heráclito, que não podia se banhar duas vezes no mesmo rio. Porque o rio não era o mesmo, nem ele, Heráclito, continuava sendo o mesmo de outrora. Tudo é devir.

Portanto, de certa forma, esse filme inspirado é também uma viagem sem volta. De jovens que descobrem o luto e, portanto, fazem uma passagem forçada e prematura para o outro lado, o da consciência da finitude humana e da morte. Mas é também a iniciação nesse outro ritual, o cinematográfico, com uma obra de estreia forte, barata e cheia de poesia. Ritos de passagem. Que o caminho seja longo e continue inspirador.

por Luiz Zanin

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/estrada-para-ythaca/

Sessão Cinerama: “Estrada para Ythaca”

Representando a efervescente cena cultural do Ceará, o Cinerama convida a todos para embarcar nos caminhos da Estrada para Ythaca, um filme realizado por Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Pedro Diógenes e Guto Parente. Inquieto, feito de maneira totalmente independente, é um cinema que sinaliza para diferentes formas de produção e se posiciona a favor da liberdade criativa e da invenção. Em contraponto, vamos exibir o curta-metragem A linguagem da persuasão, de Joaquim Pedro de Andrade, que atenta para a presença cada vez mais imperativa da publicidade em nossa sociedade. A entrada é gratuita e depois da sessão vamos bater um papo sobre os filmes, apareça!

ESTRADA PARA YTHACA (2010, 70min)
Direção, Produção, Roteiro, Fotografia, Som, Montagem:
Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes, Ricardo Pretti.

“Mantenha sempre Ythaca em sua mente.
Chegar lá é sua meta final,
Mas não tenha pressa na viagem.
Melhor que dure vários anos;
E ancore na ilha quando você estiver velho,
com todas as riquezas que você tiver adquirido no caminho,
sem esperar que Ythaca irá enriquecê-lo.
Ythaca terá lhe dado a linda viagem.
Sem ela você nunca teria partido,
E ela não poderia dar-lhe mais…
Tão sábio que serás, com todo conhecimento,
Já terás entendido o que significa Ythaca.”
Konstantínos Kaváfis

Prêmios:

• Melhor Filme – Júri da Crítica e Júri Jovem | 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
• Melhor Trilha Original | 20º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema
• Prêmio Filme Livre | 10ª Mostra do Filme Livre

A LINGUAGEM DA PERSUASÃO (1970, 11min)
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Reflexão sobre um mundo em que não existem refúgios, a existência é passiva, e os destinos são manipulados por indivíduos com habilidades para persuadir através de técnicas de propaganda e marketing. Esse documentário institucional, encomendado pelo SENAC, vai muito além de seu objetivo inicial devido a sua reflexão crítica sobre a sociedade brasileira dos anos 1970. A narração é do escritor Ferreira Gullar.

Dia: 28/03
Hora: 18h30
Local: Auditório da CPM – Escola de Comunicação/UFRJ, Campus da Praia Vermelha
Entrada gratuita

 

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* as exibições são no formato DVD

Meteorango Kid, o herói intergalático

“10 anos sem estudar, 10 anos vagabundando por aí,
10 anos de maconha, 10 anos marginal.
Cagar é só o que dá vontade de fazer.
Cagar, porra! Mas é duro.
Só eu pra dizer o trabalho que me deu pra chegar até aqui.”

O título de METEORANGO KID (1969) sugere um trash tupiniquim de heróis. Não é, mas pode causar espanto, risos e repulsa falando de coisas um pouco mais sérias. O movimento underground baiano no final dos anos 60 revelou muita gente interessante. André Luiz Oliveira foi um deles. Formado pela faculdade de cinema da UFBA, André juntou atores do teatro marginal, cinema de vanguarda e Novos Baianos para filmar um texto de sua autoria sobre a revolta da juventude classe média.

No centro de tudo, Lula, um jovem crucificado entre o dever da inconformidade política e a moral da família burguesa. Perdido, opta pela alienação como viés mais simples para levar a vida. Seu poder de ser esculhambado e esculhambar é proporcional. O jovem como interseção dos acontecimentos. Como no clássico de Andréa Tonacci, BLABLABLÁ (1968) todos têm e não têm razão. Os discursos políticos são ora inócuos, ora substanciais. E a idéia é mostrar o que a dúvida pode causar na cabeça daquele jovem, cada vez mais sedento pela repulsa alheia.

Passeia entre as melecas que tira enquanto azara meninas, a indiferença pelos protestos políticos dos amigos e os baseados que queima. Lula delira como se fosse um astro do cinema na pele de heróis como Tarzan e Batman. Ao longo do filme, cruza ainda com outras figuras como o amigo que profere as sábias palavras que abrem esse texto. O filme também nos apresenta um personagem isolado, um inacreditável homem vampiro que tenta, em vão, atacar pescoços de mocinhas indefesas.

Lula, assim como André Luiz Oliveira, observa o mundo com um riso irônico, sede de rebeldia e vontade de mandar todos tomarem… Rebeldes com causa e sem porquês. Isso fica claro na seqüência chave onde Lula e dois amigos enrolam e queimam um baseado. O desfecho é a tradução da ideologia humana. A lei do mais forte. Aliás, depois de METEORANGO, fica fácil saber onde Lírio Ferreira e Selton Mello se inspiraram para a “aula de enrolar baseado” no excelente ARIDO MOVIE (2006).

Esteticamente, METEORANGO KID bebe na fonte de Glauber (principalmente CANCER) e Sganzerla (BANDIDO DA LUZ VERMELHA e HQ), flertando também com o neo-realismo italiano e nouvelle vague. A origem Tropicália e a arte de Helio Oiticica também são facilmente identificadas. No entanto, a ousadia faz o filme parecer muito com os primeiros trabalhos de John Waters, onde a prioridade é apresentar um freak show de figuras repulsivas, aterradoras e surrealistas.

METEORANGO KID entrou para a história como um dos principais filmes marginais do cinema brasileiro e ganhou o prêmio do público no Festival de Brasília. André Luiz Oliveira ainda fez alguns poucos trabalhos, entre eles o genial e premiado LOUCO POR CINEMA (1994) que parece um CECIL B. DEMENTED (John Waters) tupiniquim. O cineasta também realizou recentemente dois filmes que não foram para circuito, são eles EM VERDADE VOS DIGO e SAGRADO SEGREDO, ambos de 2005.

por André Blak

fonte: http://udigrudi.com.br/andreblak/?p=47

Sessão Cinerama: “Meteorango Kid, o herói intergalático”

“Só eu pra dizer o trabalho que me deu pra chegar até aqui.” E agora que chegamos, vamos curtir! O Cinerama convida todos para a exibição de Meteorango Kid, o herói intergalático, filme de 1969 realizado pelo cineasta André Luiz Oliveira. Um dos mais representativos exemplos do que se convencionou a chamar de Cinema Marginal, o filme mostra o desconforto do jovem Lula entre a alienação e a rebeldia, zanzando pelas ruas, fumando baseados, perdido entre discursos políticos e a opressiva moral burguesa ao som da ótima trilha composta pelos Novos Baianos. Anos antes um bandido havia sentenciado: quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba. Meteorango é o anti-herói do terceiro mundo, prestes a explodir!

A sessão será aberta pelo curta-metragem Salomé, de Fernando Gerheim, um exemplar do baixo surrealismo, cruzamento de Georges Bataille com Zé do Caixão. No fim da noite, haverá ainda uma conversa com Gerheim sobre os filmes e tudo mais que der na telha. A entrada é gratuita, apareça!

METEORANGO KID – O HERÓI INTERGALÁTICO
André Luiz Oliveira, 1969, 83min
Sinopse: O filme narra, de maneira anárquica e irreverente, as aventuras de Lula, um estudante universitário, no dia do seu aniversário. De forma absolutamente despojada, mostra, sem rodeios, o perfil de um jovem desesperado, representante de uma geração oprimida pela ditadura militar e pela moral retrógrada de uma sociedade passiva e hipócrita. O anti-herói intergaláctico atravessa este labirinto cotidiano através das suas fantasias e delírios libertários, deixando atrás de si um rastro de inconformismo e um convite à rebelião em todos os níveis.

SALOMÉ
Fernando Gerheim, 2010, 20min
Sinopse: Um exemplar do baixo surrealismo. Um cruzamento de Georges Bataille com Zé do Caixão. Cinema marginal digital. O defeito de fabricação da indústria dos sonhos. O vídeo pensa o cinema. Tecnoartesania ou morte.

Dia: 21/03
Hora: 18h30
Local: Auditório da CPM – Escola de Comunicação/UFRJ, Campus da Praia Vermelha
Entrada gratuita

 

As exibições são no formato DVD.

Noite de estreia

Veja como foi a sessão de abertura do Cinerama em 2012.

E aí, vai ficar quarta à noite em casa?

“Zabriskie Point”, de Michelangelo Antonioni

– Você realmente roubou aquela coisa? Por quê?

– Eu precisava sair do chão.

          A vida é cheia de som e fúria em Zabriskie Point, onde não há terno nem sobrenome e Antonioni pode ser visto baratinado, distribuindo zooms desnorteantes, ensandecidos, com o intuito de capturar o espírito de uma América igualmente atribulada. E aqui, por mais que apontem defeitos de lógica e insistam em cobrar coerência, é o espírito que me fascina: poucas vezes o cinema conseguiu ser tão rock’n’roll. As conseqüências da envergadura política e do espírito livre da obra fazem com que se mantenha acesa a chama da transgressão, do desejo, além de reanimar a pulsão de vida adormecida pela rotina que existe em nós.

              Acho quase impossível falar de Zabriskie Point sem soar hiperbólico ou repetitivo, mas cada vez que o vejo é como se a potência das imagens e do discurso acionasse uma descarga de energia e liberdade que me deixa com a cabeça fervendo, como se cada molécula do meu corpo estivesse numa dança descontrolada e feroz. O lugar representa o ponto geográfico mais baixo dos Estados Unidos da América, talvez por isso seja preciso alçar vôos estratosféricos, fugir de uma realidade sufocante e rarefeita para encontrar o sexo nas areias do deserto.

          A liberdade existe, ao longe, como uma velha lembrança envolta por uma nuvem de poeira, bastante desgastada pela burocracia e por outras opressões sociais. O mundo é um caos, mas Antonioni nos convida a explodi-lo. E quando um poeta resolve fazer barulho, é obrigação do universo se calar para ouvi-lo.

por Samuel Lobo

Sessão Cinerama: “Zabriskie Point”, de Michelangelo Antonioni

O explosivo libelo anti-caretice do cineasta italiano Michelangelo Antonioni aquece a sala do Cinerama nesta quarta, dia 14. “A vida é cheia de som e fúria em Zabriskie Point, onde não há terno nem sobrenome e Antonioni pode ser visto baratinado, distribuindo zooms desnorteantes, ensandecidos, com o intuito de capturar o espírito de uma América igualmente atribulada. E aqui, por mais que apontem defeitos de lógica e insistam em cobrar coerência, é o espírito que fascina: poucas vezes o cinema conseguiu ser tão rock’n’roll.” Venha purificar os olhos e o espírito sob influência do poeta italiano no Cinerama, a entrada é gratuita. Apareça!

ZABRISKIE POINT
Michelangelo Antonioni, 1970, 110min.
Sinopse: Um retrato poético do fim dos anos 60 nos Estados Unidos através da história de dois jovens foragidos ao sistema: ele por ter assassinado um policial durante um motim estudantil, ela por tê-lo encontrado. Antonioni, neste seu único filme nos EUA, assina uma das obras mais contudentes e ferozmente anti-capitalistas que o cinema já assistiu, logo no coração da besta: são aviões roubados, corpos em plena libertação, a opressão causada pela publicidade, os paraísos artificiais das drogas culminando num final que prima pela apoteose. A trilha sonora é assinada por Pink Floyd e possui canções de Grateful Dead e The Rolling Stones.

A exibição é no formato DVD

Sessão Cinerama: “Noite de estreia”, de John Cassavetes