CINERAMA

cinema sem frescura

“Noite de estreia”, de John Cassavetes

por Caio Soares

Mais um dia de ensaios da peça “Second Woman”, encenada em um teatro qualquer da Broadway. Em uma das cenas mais tensas, a protagonista, que passa por uma crise de identidade, acaba levando uma surra do marido. A mulher cai no chão, em prantos. Mas alguma coisa está errada. O choro não para, os companheiros de peça não entendem a reação da colega de trabalho. Neste momento, o espectador de Noite de Estreia (Opening Night, 1977) se pergunta: quem está em crise, Myrtle Gordon, a estrela da peça, interpretada de forma brilhante por Gena Rowlands, ou a própria atriz?

Por mais de duas horas e meia (um dos poucos “defeitos” do filme), Cassavetes reflete sobre o medo da velhice e as conseqüências negativas da idade nas pessoas dependentes da beleza física. Quando Myrtle se vê forçada a encarar a situação, começa a se dar conta de que a melhor parte da vida dela já passou, e que o futuro que lhe aguarda será solitário, sem marido ou filhos – ou seja, sem amor.

Para os personagens do longa-metragem, a crise de Myrtle não faz muito sentido. As cabeças principais da peça (diretor, produtor e autora) se desdobram para compreender os motivos do colapso nervoso da atriz. A atriz afirma que não consegue captar a alma do personagem, um papel de velha que – segundo a mesma – irá arruinar a sua carreira. Na verdade, Myrtle se enxerga por inteiro no papel, e não gosta do que vê: uma mulher de meia-idade que perdeu a beleza e não consegue mais despertar desejo sexual nos homens. Temendo que representar a si mesma revele sobre ela mais do que gostaria, a atriz afunda em depressão.

Outra virtude de Noite de Estreia está no muito bem feito diálogo entre teatro e cinema. A câmera invade o palco e os bastidores sem pedir licença, mostrando de perto o sofrimento da estrela muitas vezes sem anunciar à platéia quem está em cena, se é Myrtle (a atriz) ou a personagem que ela interpreta. Cassavetes, marido de Gena Rowlands e par romântico de Myrtle na peça, trava uma relação tempestuosa com a atriz. A química do casal é incrível, como se Cassavetes e Gena tivessem atuado na vida real a peça que está dentro do filme, para depois reencená-la para o longa. As linhas entre a peça e o filme ficam cada vez mais tênues, fazendo com que o espectador mergulhe de cabeça na história. Não se presta atenção somente nos personagens do filme, mas foca-se na peça, que compartilha uma história paralela de solidão e desespero com os personagens do filme.

Cassavetes embarca em algumas maluquices, como a estranha (e um pouco desnecessária) sessão espírita que Myrtle frequenta, ou então as visões de uma garota morta (versão mais jovem da estrela?), mas nenhuma dessas cenas termina do jeito convencional. Noite de Estreia é sempre imprevisível e estimulante. Uma verdadeira obra-prima.

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