CINERAMA

cinema sem frescura

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Better to be king for a night than schmuck for a lifetime

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Desde já peço desculpa pelo título de minha resenha, mas achei que esta fala retrata tão bem o tema da obra que merecia ser citada em sua forma original. O filme retrata a vida de Rupert Pupkin que fantasia em ser um renomado comediante da televisão e acredita ser o ‘’rei da comédia’’. Para Pupkin o que o impede de sair do anonimato para ingressar no estrelato é somente uma oportunidade. Por isso, persegue Jerry Langford, um famoso apresentador de talk show, para assim conseguir sua chance de ouro. E é rejeitado. Após juntar-se com outra fanática bola um plano para sequestrar o apresentador pedindo como resgate o espaço no programada do refém para expor seu stand-up em transmissão nacional.

O filme chama atenção para uma visão bem consolidada na sociedade: a solidão é equivalente à derrota. Por isso muitas vezes vemos pessoas que buscam com garras e dentes um espacinho no hall da fama, seja em meio de comunicações ou em seus círculos sociais, escola ou trabalho. Ser “famoso’’ significaria nunca estar só e isso é visto como uma vitória. A personagem de Langford certamente estaria em desacordo com este pensamento, uma vez que mesmo com fama e riqueza é extremamente triste e mau-humorado.

Também é vista a transição entre a admiração e a inveja em relação a um ídolo. Analisando friamente, é possível perceber que Pupkin não se interessa pela arte de Langford e sim pelo seu estilo de vida e pelos benefícios que a fama pode lhe trazer. Esta vontade de ocupar um lugar que não lhe pertence de uma forma tão firme o torna perigoso e ele acaba cometendo um crime, como retrata a história.

O filme indubitavelmente apresenta temas bem interessantes, porém não me agradou. Admito que a culpa em grande parte deva ter sido minha, pois não fui com olhos imparciais e talvez por ser fã do Scorsese e esperar algo mais violento e bruto tenha gerado a deixa para o desapontamento.

Não costumo me basear nisso como parâmetro, mas só para mérito de curiosidade este foi um dos maiores fracassos de bilheteria de Scorsese. Apesar de minha crítica, recomendo que assistam, pois a atuação de De Niro está (como de costume) admirável e a parceria do mesmo com o diretor em questão é sempre interessante.

Luisa M. L. Peres

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Doméstica

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O filme Doméstica me decepcionou em 2 pontos: o primeiro, o título; o segundo, a ausência de um fim. Mas não me entenda mal, o filme é muito bom e me surpreendeu, como poucos filmes brasileiros.

Pouco antes de começar, uma pequena apresentação foi feita aos espectadores na qual ficamos sabendo de quê se tratava o filme. Por isso minha estranheza desde a 1ª imagem: Doméstica. Um título como esse, no singular, me leva a crer que eu estaria prestes a assistir a um filme sobre características gerais, típicas, de pessoas que desempenham essa função de empregada doméstica. O título no singular denota a descrição, a caracterização de um arquétipo.

Porém, não foi essa a descrição feita na apresentação. E, afinal, não foi isso que o filme mostrou. O filme era sobre domésticas, algumas delas apenas, todas com uma característica em comum: o tempo prolongado de trabalho em uma mesma casa. Provavelmente, se a história do filme não nos tivesse sido contada previamente, esse detalhe ter-me-ia passado despercebido.

Dito isto, sigamos em frente, ao começo do filme: Domésticas, se me permite.

Minha impressão geral foi muito boa! O filme retrata desde cenas tristes, dramas familiares, personagens em crise e situações constrangedoras até um pouco da mais pura comédia: cenas hilárias, personagens divertidíssimas e conversas de absoluta leveza.

Foi também muito interessante ver que o diretor (ou diretora) escolheu retratar desde famílias ricas, com carro exclusivo para uso da doméstica/ motorista, até um domicílio paupérrimo, onde a empregada protagonista era empregada de uma empregada (com redundância!).

Na mão de cinegrafistas amadores, nós somos levados ao interior dos lares onde domésticas trabalhavam há anos, tendo visto o crescimento de seus pequenos patrões até se tornarem adolescentes. Encarregados das filmagens e entrevistas, esses pequenos diretores tornam-se personagens do filme ao descobrirem histórias inimagináveis contadas pelas domésticas que estiveram presentes em suas vidas desde o princípio. Mérito, claro, da direção, que selecionou as cenas de forma muito inteligente para introduzir nas histórias os próprios cinegrafistas.

E nesse estilo de filmagem, muitas vezes tremido, algumas vezes estático, mas sempre inocente, nos damos conta de que aquelas pessoas que passaram mais de uma década cuidando dos filhos dos outros, criando-os, educando essas crianças que não são suas, essas pessoas também têm seus problemas, suas vidas pessoais, suas crianças.

O 2º ponto que me desagradou foi a inexistência de um fim. Eu pude perceber, através da escolha da ordem das histórias das 6 domésticas, a criação de um início, brando, que evoluiu para histórias mais profundas. Porém, a partir destas eu não vi a elaboração ou um encaminhamento de um fim, uma conclusão. Não me foi clara a criação de nenhuma tese a partir do que foi apresentado. Claro, eu não esperava que a opinião do diretor (ou diretora) nos fosse explicitada. Porém, da metade para o final do filme, tudo o que eu vi foi uma sequência de contos, desconexos entre si, com níveis dramáticos crescentes, até que tudo termina, a tela fica preta, e o filme acabou. Em minha opinião, o filme acabou no meio. Faltou um fechamento.

Felipe Telles Lesbaupin

Michel Marie, Godard e a Nouvelle Vague

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No próximo dia 23 de maio, às 15h, a convite do programa de pós-graduação em Comunicação da ECO/UFRJ e da editora Papirus, o historiador do cinema Michel Marie faz uma conferência no Campus da Praia Vermelha e lança o seu livro A Nouvelle Vague e Godard, editado recentemente no Brasil.

Michel Marie é professor emérito da Universidade de Paris 3, onde criou o programa de ensino em Estudos Cinematográficos. Ele deu aulas também em Montréal (Université de Montréal) e no Brasil (UNICAMP). Criou e dirige a coleção Cinema e Artes Visuais das edições Armand Colin. Publicou três clássicos dos estudos cinematográficos, com Jacques Aumont: Estética do filme (traduzido em 11 línguas), A análise dos filmes e o Dicionário teórico e crítico do cinema; recentemente publicou Le Cinéma muet, Guide des études cinématographiques, Lire les images de cinéma, Les grands pervers au cinéma, Les films maudits.

O livro A Nouvelle Vague e Godard faz uma apresentação histórica de um dos movimentos mais importantes da história do cinema mundial, elegendo Acossado, primeiro filme de JeanLuc Godard, como manifesto estético do movimento.

A conferência e o lançamento do livro, acompanhados de projeções de filmes de Godard, acontecem no auditório da CPM, a partir das 15h. A conferência de Michel Marie terá tradução consecutiva.

“Noite de estreia”, de John Cassavetes

por Caio Soares

Mais um dia de ensaios da peça “Second Woman”, encenada em um teatro qualquer da Broadway. Em uma das cenas mais tensas, a protagonista, que passa por uma crise de identidade, acaba levando uma surra do marido. A mulher cai no chão, em prantos. Mas alguma coisa está errada. O choro não para, os companheiros de peça não entendem a reação da colega de trabalho. Neste momento, o espectador de Noite de Estreia (Opening Night, 1977) se pergunta: quem está em crise, Myrtle Gordon, a estrela da peça, interpretada de forma brilhante por Gena Rowlands, ou a própria atriz?

Por mais de duas horas e meia (um dos poucos “defeitos” do filme), Cassavetes reflete sobre o medo da velhice e as conseqüências negativas da idade nas pessoas dependentes da beleza física. Quando Myrtle se vê forçada a encarar a situação, começa a se dar conta de que a melhor parte da vida dela já passou, e que o futuro que lhe aguarda será solitário, sem marido ou filhos – ou seja, sem amor.

Para os personagens do longa-metragem, a crise de Myrtle não faz muito sentido. As cabeças principais da peça (diretor, produtor e autora) se desdobram para compreender os motivos do colapso nervoso da atriz. A atriz afirma que não consegue captar a alma do personagem, um papel de velha que – segundo a mesma – irá arruinar a sua carreira. Na verdade, Myrtle se enxerga por inteiro no papel, e não gosta do que vê: uma mulher de meia-idade que perdeu a beleza e não consegue mais despertar desejo sexual nos homens. Temendo que representar a si mesma revele sobre ela mais do que gostaria, a atriz afunda em depressão.

Outra virtude de Noite de Estreia está no muito bem feito diálogo entre teatro e cinema. A câmera invade o palco e os bastidores sem pedir licença, mostrando de perto o sofrimento da estrela muitas vezes sem anunciar à platéia quem está em cena, se é Myrtle (a atriz) ou a personagem que ela interpreta. Cassavetes, marido de Gena Rowlands e par romântico de Myrtle na peça, trava uma relação tempestuosa com a atriz. A química do casal é incrível, como se Cassavetes e Gena tivessem atuado na vida real a peça que está dentro do filme, para depois reencená-la para o longa. As linhas entre a peça e o filme ficam cada vez mais tênues, fazendo com que o espectador mergulhe de cabeça na história. Não se presta atenção somente nos personagens do filme, mas foca-se na peça, que compartilha uma história paralela de solidão e desespero com os personagens do filme.

Cassavetes embarca em algumas maluquices, como a estranha (e um pouco desnecessária) sessão espírita que Myrtle frequenta, ou então as visões de uma garota morta (versão mais jovem da estrela?), mas nenhuma dessas cenas termina do jeito convencional. Noite de Estreia é sempre imprevisível e estimulante. Uma verdadeira obra-prima.

Sessão Cinerama: “Pai e filha”, de Yasujiro Ozu

Na próxima quarta o Cinerama vai ao outro lado do globo atrás de um dos grandes artesãos do cinema, o japonês Yasujiro Ozu. Iremos exibir ‘‘, marco da carreira do cineasta, e após a exibição haverá uma conversa com o pesquisador e professor de cinema japonês Keiji Kunigami. A entrada é gratuita, por isso apareça, chame os amigos, os parentes, aquele primo preguiçoso e toda a turma do balacobaco, a quarta-feira promete!

Usaremos como referência de leitura um texto escrito por João Luiz Vieira sobre o cinema de Ozu. Eis o link: https://cineramaeco.wordpress.com/2012/05/01/ozu-hara-o-sublime-no-cinema-japone/

PAI E FILHA (1949, 108min)
Direção: Yasujiro Ozu
Sinopse: Retrato da tradição e da compaixão japonesa, o filme conta a história de Noriko, uma jovem de 27 anos que ainda mora com a família. Todos querem que ela case, mas ele prefere continuar vivendo e cuidando do seu pai.

* o filme será projetado no formato dvd.

Ozu-Hara: o sublime no cinema japonês

por João Luiz Vieira

Num dado momento ao final do hoje clássico e cultuado Era uma vez em Tóquio (Tokyo monogatari, 1953), a personagem Noriko, interpretada por Setsuko Hara, volta para Tóquio de trem e segura nas mãos, com carinho, um relógio de bolso, que lhe fora ofertado pelo sogro, pertencente à sogra recém-falecida. Sutilmente, seus olhos saem do relógio, seu olhar interioriza-se e parte na direção do espectador, quase que numa interpelação direta a quem está do lado de cá da plateia, com quem compartilha esse afeto privado. Por alguns instantes suas mãos se fecham sobre o relógio, como que protegendo a memória de alguém que já não está mais ali e um olhar tristonho, desolado e intenso parece apenas visualizar sua emoção interior. Num plano médio, câmera frontal, típico de Ozu, a duração desse gesto contido é mantido sem cortes – um tempo subjetivo carregado de afeto e emoção, que deixa um gosto amargo no final da cena e do filme –, marca do sistema de direção de Ozu na busca de um estilo de construção narrativa sempre calcada na gestualidade mínima e controlada.

Este é apenas um entre diversos momentos de um conjunto de filmes que marcam a parceria entre o diretor e uma equipe constante de técnicos e atores. De 1949, ano de Pai e filha (Banshun), até o seu último filme, de 1962, A rotina tem seu encanto (Sanma no aji) – feliz título brasileiro, emblemático do grande tema dessa obra singular –, com poucas alterações, esse grupo principal permanece mais ou menos imutável de filme para filme como o momento considerado ápice da carreira do mestre japonês. (1) Dessa última fase, e de um total de doze títulos, seis se destacam pela presença da atriz Setsuko Hara, formando um conjunto de filmes notáveis, de rara beleza e intensidade emocional que, em minha opinião, permanecem até hoje como grandes obras do cinema japonês e mundial. (2) Filmes que transcendem uma identidade local e nacional para atingir públicos e plateias mundiais em mostras, como esta, que possibilitam sua redescoberta constante por novas gerações. Para além da curiosidade com um outro diferente e também da redescoberta de hábitos, comportamentos, arquitetura, ambientação e costumes de um passado cultural rigorosamente distante e arqueológico, permanece o sentido estético que, me parece, tem muito ainda a nos dizer enquanto método de trabalho e, principalmente, no conhecimento e domínio da linguagem cinematográfica. Neste aspecto, os filmes do período aqui destacado exibem uma afinada noção de mise-en-scène e construção de unidade orgânica onde enquadramento, escala, iluminação, duração temporal, construção de espaço, música, vestuário, movimentação e expressão de atores, tudo se harmoniza numa coreografia única pautada por uma economia e rigidez estéticas, marcas autorais reconhecidas e celebradas no cinema de Ozu. Nesse sistema de direção singular, o encontro entre Ozu e Setsuko Hara não poderia ter tido maior afinidade. Ozu parece ter percebido o quanto aquele corpo poderia expressar, especialmente o rosto, muito bem aproveitado nos planos médios utilizados em diálogos. Mas também, a postura de corpo inteiro em emblemáticos planos gerais de câmera baixa, com as personagens interpretadas por Hara e relacionadas à geometria arquitetônica dos espaços domésticos das narrativas. Esse profundo conhecimento mútuo permitiu a Ozu tirar partido da delicadeza gestual da atriz, seja no caminhar (muitas vezes ela parece levitar), seja no cotidiano dos gestos e atitudes mais comuns como sentar e levantar, dobrar e guardar uma roupa, servir o chá ou o saquê, não importa. Testemunhamos uma integração muito especial entre a direção e a expressão e movimentação dessa atriz.

Reconhecido e admirado pela simplicidade, economia e minimalismo de seu estilo – aspectos que, de certa forma sinônimos intercambiáveis – Ozu privilegia enquadramentos em plano médio, tomadas com a câmera baixa e, na montagem, o corte seco, na recusa de efeitos e truques óticos como as fusões (“tudo isso é atributo da câmera e não do cinema”). Assim parece construir um cinema frio que posiciona o espectador de forma distanciada e desengajada, o que de fato ocorre. (3) No entanto, Ozu é um mestre também em mexer com as nossas reações ao povoar sua rígida geometria com algumas das personagens mais humanas de todo o cinema. Segundo Donald Richie, um dos mais importantes e perceptivos críticos do cinema japonês, Ozu constrói narrativas onde afloram, delicada e sutilmente, personagens de carne e osso, com suas contradições, revelações, esperanças, desencanto, tudo isso tornado visível em sua aparente refiguração. (4) Tal vibração humana consegue pulsar por toda a geometria fria e pela linguagem controlada trabalhada por Ozu no detalhismo preciso dos espaços e enquadramentos por onde transitam suas personagens. O resultado sempre parece contraditório na experiência única de percepção desses seis filmes, com destaque para Pai e filha, obra inaugural desse, digamos, ciclo em que atua Setsuko Hara. Ao mesmo tempo em que percebemos essa rigidez (que chama atenção para si mesma, se comparada, por exemplo, à decupagem comum do plano-contraplano nos diálogos do cinema narrativo clássico hollywoodiano desse mesmo período), também sentimos a emoção, o calor humano que impregna essas imagens, numa tensão permanente entre distância e proximidade. A sequência-chave de Pai e filha que talvez exemplifique muito bem essa tensão entre exterior e interior, entre objetividade e subjetividade é a da ida ao teatro Nô quando Noriko se dá conta de que seu pai poderia estar interessado em outra mulher, Aya (Yumeji Tsukioka), viúva, espectadora da perfomance em andamento. Apesar do público ser heterogêneo, incluindo jovens adultos aparentemente desacompanhados, há casais na plateia ressaltando o fato de que Noriko, aos 27 anos, ainda é vista acompanhada pelo pai, em vez de um marido, como tradicionalmente seria o caso. Todos seguem, impassíveis, o enredo da peça que tematicamente se relaciona com o que Noriko sente, sublinhando um comentário sobre o que se vê, ou seja, tanto a performance Nô quanto sua reação no desenrolar da cena. (5) A sequência é longa, composta por vinte e cinco planos, que se alternam entre tomadas em plano médio de Noriko e seu pai atentos ao desenrolar da peça; planos gerais e frontais do palco a partir da plateia; planos de conjunto do palco mais próximos do ator da peça e close-ups de Noriko reagindo aos poucos ao perceber o interesse mútuo entre seu pai e uma possível rival. Na primeira metade da sequência, somos apresentados à peça, da mesma forma em que a plateia diegética o é. Ozu, numa construção de espelhamento, nos coloca na posição dupla de espectadores da performance Nô e também do drama íntimo pelo qual passa sua trágica, discreta e contida heroína/espectadora na plateia. Interioridade e exterioridade ganham fluxos e contornos sutis através de pontos de vista que alternam os de Noriko (olhando ora o pai, ora a viúva) e os da câmera, que observa o desenrolar desse outro drama centrado, basicamente, no olhar e na pouca, mas intensa, expressão facial de Setsuko Hara encenada para o espectador do filme. O efeito parece devastador, uma vez que o enigma do rosto aparentemente impassível, tal qual a máscara Nô do ator no palco, vai aos poucos ganhando sentido pela precisa movimentação do olhar, da boca, do pescoço e da respiração da atriz, mais ou menos nessa ordem, num complexo clima emocional que define uma tomada de posição da personagem, ainda confusa, mas já vivenciando uma nova situação emocional no ambiente e postura tradicionais japoneses. O plano de transição para a sequência seguinte é de uma árvore, sobre a qual ainda se estende o canto da performance Nô, sutilmente sendo substituído pela música não diegética do filme. Ao sair do teatro, Noriko não suporta caminhar ao lado do pai na mesma calçada. Inventa uma desculpa e segue pelo meio da rua. Pai e filha, idades e gerações diferentes seguem numa mesma trajetória, mas agora separados emocional e espacialmente.

Completando 90 anos em junho de 2010, Setsuko Hara nasceu em Yokohama, na prefeitura de Kanagawa, registrada com o nome de Masae Aida. Pelas mãos de um cunhado, o realizador Hisatora Kumagai, em 1935, portanto aos 15 anos, ela entrou para o cinema. Foi a Nikkatsu, companhia produtora de seu primeiro filme, quem sugeriu a mudança de seu nome verdadeiro para Setsuko, aproveitando-se do sucesso do filme onde sua personagem chamava-se Setsuko. (6) De imediato, sua juventude e beleza chamaram atenção do diretor alemão Arnold Fank, que a escalou para o papel principal da coprodução nipo-alemã A filha do samurai (Die Tochter des Samurai / Atarashiki tsuchi, 1937). (7) Daí para a frente foi uma carreira bastante promissora e de muito sucesso, com viagens ao exterior, incluindo Berlim, Paris e Hollywood. Ao longo de pouco mais de trinta anos de carreira, e sob a direção de mestres como Akira Kurosawa, Mikio Naruse, Yasuki Chiba, Tadashi Imai ou Hiroshi Inagaki, mas, especialmente, Ozu, foi uma das atrizes mais cultuadas do cinema japonês, ao lado de outras não menos famosas e queridas como Kinuyo Tanaka, Machiko Kyo e Hideko Takamine, todas, assim como Hara, associadas ao período de ouro do cinema japonês. Seu precoce afastamento do cinema e da vida pública pouco tempo depois da morte de Ozu – o enigma de sua reclusão fez dela uma espécie de Greta Garbo do cinema japonês – deixou órfã uma legião de fãs que até hoje lamenta seu retiro e estilo de vida. Em oposição aos papéis principais desempenhados nesses seis filmes sob a direção de Ozu, ou seja, a de filha, esposa e mãe, Hara nunca se casou e mora só, até hoje e, segundo a lenda, em Kamakura – cenário de Pai e filha e também local onde se encontra o túmulo de Ozu –, uma região que hoje já faz parte da grande Tóquio. A permanência desse mito no imaginário japonês tem inspirado diretores tão diversos como Kaizo Hayashi, no belo Dormir como se sonhasse (Yumemiru yôni nemuritai, 1986) exibido no Festival do Rio nesse mesmo ano. Também é o caso da animação Millenium Actress (Sennen joyû, 2001) de Satoshi Kon.

Tenho uma história com Setsuko Hara. Em agosto de 1991, quando de minha primeira visita a esse país, e a convite da Fundação Japão, havia acabado de oferecer no semestre anterior da UFF um curso dedicado à filmografia dos grandes mestres japoneses, onde Ozu era naturalmente destaque. Sabedores dessa programada viagem, alguns alunos, também encantados pelo contato com essa cinematografia e particularmente fascinados pela descoberta de Setsuko Hara, arquitetaram um plano onde eu seria o portador de um presente dessa turma especialmente preparado para ser entregue à atriz. De antemão, já sabia das dificuldades que teria pela frente, ciente do mito e do fato de que, com exceção de uns poucos amigos, ela não recebia mesmo ninguém, reclusa na proteção de uma espécie de autoexílio desde meados dos anos 1960. Ainda assim pensei em arriscar – quem sabe um estrangeiro, vindo de tão longe, do Brasil, décadas depois desse afastamento… quem sabe? Parti, portanto, levando como presente uma pequena caixa de madeira feita de nós de várias madeiras diferentes, acompanhado de um poema feito por um aluno em homenagem a ela (gentilmente traduzido para o japonês pelo pessoal do Centro Cultural do Japão no Rio), num cartão assinado por toda a turma de graduação. Em Tóquio, numa agenda apertada de visitas e contatos com realizadores, cinematecas e escolas, eu pressionava a Fundação Japão para agendar essa (im)possível visita. Os funcionários, que não acreditavam em tamanha ingenuidade, afirmavam ser impossível, pois ela era “mais difícil que o próprio Imperador”. Não demorou muito para eu perceber que não deveria insistir e, principalmente, que esse desejo era absurdo e egoísta, uma vez que a resolução dessa atriz deveria ser simplesmente respeitada. Diante desta decisão, passei a deixar o assunto de lado. As coisas começaram a tomar um novo e surpreendente rumo. A caixa continuava ali, na mesa de cabeceira de um quarto de hotel em Shinjuku, olhando para mim. Numa primeira visita à Fundação Kawakita – tradicional centro de difusão do patrimônio fílmico do Japão e onde fui atrás de alguns filmes de Kon Ichikawa, um dos meus diretores preferidos, comentei sobre o presente e a iniciativa de alunos de cinema de um país tão distante com o funcionário que me recebeu, Sr. Akira Shimizu. Certamente sensibilizado, acredito eu, ele me disse que levaria o assunto ao conhecimento da presidente da Fundação, a Senhora Kashiko Kawakita, e que, como eu retornaria no dia seguinte para ver mais filmes, ele teria uma resposta. No dia seguinte, lá estava eu, presente nas mãos, recebido pelo Sr. Shimizu.
Em minutos, ouço passos ritmados pelas sandálias japonesas e, do alto de seus conservados oitenta anos, muito bem disposta e elegante em seu quimono, surge a Senhora Kawakita, que me recebe com um chá, conversa um pouco, pede para ver o tal presente, o cartão com a poesia e as diversas assinaturas e, num sorriso menos enigmático do que o de Setsuko Hara, confirma algo que o Sr. Shimizu já me havia dito – ela não só era amiga pessoal de Setsuko Hara, como sua vizinha em Kamakura. Um pouco surpresa com o fato da atriz ser conhecida e admirada num país tão distante e, mais ainda, por uma novíssima geração de cinéfilos, ela prometeu entregar o presente pessoalmente a “Sesie”, como carinhosamente se referia à atriz.

Ao sair da Fundação naquele final de tarde, tive uma sensação de alegria e, caminhando pelo parque Ueno, ouvindo o grasnar dos corvos (karasu) misturado ao canto dos grilos (korogi), pensava sobre a natureza dos presentes, a circulação das pessoas e dos objetos, sobre aquela caixa de madeira artesanal trazida “do outro lado do mundo” e que seria, afinal, entregue ao seu destinatário. Imaginava o espanto de Setsuko Hara ao abrir o presente e ver o cartão com todas aquelas assinaturas de pessoas com nomes estranhos, e para ela completamente anônimas, mas que um dia também foram tocadas pelo brilho e pela luz que emanam de seu rosto, quase sempre triste e de uma dramaticidade absolutamente contida.

1 Ozu, a exemplo de outros realizadores como John Ford, Ingmar Bergman, Alain Resnais ou Akira Kurosawa, também mantinha o hábito de trabalhar com equipes mais ou menos fixas desde o início de sua carreira nos estúdios Shochiku. Dessa equipe, na fase final de sua obra, além de Setsuko Hara, destacam-se também outros atores como Chishu Ryu – este trabalhando com Ozu desde pelo menos 1935 – e Haruko Sugimura. Da equipe técnica, são presenças constantes o roteirista Koko Noda, o fotógrafo Yuharu Atsuta], o montador Yoshyiasu Hamamura e os autores das trilhas sonoras, Senji Ito e Takanobu Saito.
2 Os seis filmes, por ordem cronológica: Pai e filha (Banshun, 1949), Também fomos felizes (Bakushu, 1951), Era uma vez em Tóquio (Tokyo monogatari, 1953), Crepúsculo em Tóquio (Tokyo boshoku, 1957), Dias de outono (Akibiyori, 1960), Fim de verão (Kohayagawa-ke no aki, 1961).
3 A observação acima, atribuída a Ozu, vem de um texto crítico de Donald Richie sobre Também fomos felizes, publicado no volume 1 da série de monografias temáticas Japanese Society Through Film, intitulada The Japanese Family (New York: Japan Society, s/d). p.22
4 ibidem, p. 23
5 A origem e identificação dessa peça tem sido objeto de referências contraditórias por parte da crítica ocidental. A maioria dos estudiosos de Ozu (entre eles David Bordwell), indica a peça intituladaMorikawa para estabelecer o paralelo entre o que se desenrola no palco e o intenso estado emocional por que passa Noriko, na plateia. Segundo Bordwell, a peça dramatiza a narrativa de uma mulher aristocrata, levada à loucura pela lembrança de um amor perdido (ver David Bordwell, Ozu and the Poetics of Cinema. Princeton: Princeton University Press, 1988. P. 310). Entretanto, a tradução para o francês do roteiro original de Ozu e Kogo Noda indica como fonte, nas notas do tradutor, a peça Kakitsubata. Além da referência vir direto do roteiro original (e de um tradutor japonês), uma leitura detalhada dessa narrativa traz um paralelismo menos óbvio, muito mais sutil e, portanto, mais afinado com a discreta sofisticação de Ozu. No início da peça, de curta duração e com apenas duas personagens, um viajante recita para uma mulher um poema de cinco versos, onde cada um se inicia com os ditongos kakitsubata (uma espécie de íris aquática), que falam da acomodação e conforto provocados por um relacionamento de longa duração, utilizando a metáfora da roupa – um quimono que, de tanto ser usado se confunde com o próprio corpo – e do sofrimento da separação. O clímax dramático é mostrado na sequência do filme: a mulher revela-se como o espírito da flor íris, relembrando o azul intenso dessas flores, lembrança do seu amado, cuja cor confunde-se com o aroma da flor de laranjeira, enquanto a cigarra chora na árvore e espalha seu vestido de brocado. O dia amanhece e Buda aparece. A íris abre suas pétalas e as dobras de seu coração, e toda a terra se ilumina, incluindo árvores e flores. Para acesso ao roteiro do filme em sua versão francesa (La fin du printemps, par Yasujiro Ozu et Kogo Noda, traduçãode Takenori Noumi,com revisão e correções de Christianne Estrop) ver http://www.01.246.ne.jp/tnoumi/noumi1/default.html Para o texto completo da peça, em inglês, ver http://www.the-noh.com/en/plays/data/program_029.html
6 Tamerau nakare wakodo yo, direção de Tetsu Taguchi (Nikkatsu, 1935)
7 Dados retirados do site http://www.imdb.com/name/nm0361697/ acessado em 26/05/2010. No Japão, esse filme chamou-se A nova terra.

fonte: http://jojoscope.com/2012/04/ozu-hara-o-sublime-no-cinema-japones/

* Texto gentilmente cedido por João Luiz como referência de leitura para a sessão de 02.05 do Cinerama, onde será exibido o filme Pai e filha, de Yasujiro Ozu.

A LEI DOS MARGINAIS, de Samuel Fuller (1961)

Marginalidade e matança

por Thor Weglinski

Foras da lei. Esse é o grande foco do filme A lei dos marginais (Underworld U.S.A, de 1961), exibido nesta quarta 18/04/2012 no Cinerama. A produção, dirigida por Samuel Fuller, começa com um furto, quando Tolly Devlin, ainda menino, rouba o relógio e carteira de um bêbado. Em seguida, outro garoto tira de Tolly tudo o que este tinha conseguido, numa sucessão de delitos que já sinalizam a grande temática do longa.

Devlin é o grande protagonista da trama, aos catorze anos e já órfão de mãe, perde também o pai assassinado por bandidos. Vinte anos depois, está na cadeia e descobre que no mesmo presídio está Vic Farrar, um dos homens que matou o seu progenitor. Farrar já está velho e doente, mas Tolly consegue que o assassino em seus últimos suspiros de vida diga quem foram os outros que tiraram a vida de seu ente querido: Gela, Smith e Gunther.

A partir dali, a película narra a empreitada de vingança de Devlin que, fora da prisão, descobre que os outros assassinos de seu pai são agora grandes chefões do crime. Em seus primeiros passos, sua imagem de herói é enaltecida quando salva a bela Cuddles de ser espancada por um dos capangas dos poderosos, e se envolve com a moça durante a trama.

Para conseguir seu objetivo, Tolly se infiltra no grupo de outro bandido, Connors, e assim se aproxima e ganha confiança dos chefões. A partir dali começa uma sequência de mortes armadas pelo protagonista, e a estética da violência é intensa para mostrar a vontade de revanche. Sua imagem de mocinho muda, e vai a pergunta: será ele também um fora da lei? O foco do diretor Samuel Fuller é a criminalidade, não apenas ao mostrar os bandidos usuais, mas também aqueles que pensamos que não são, mas que se tornam.

Tolly arma a morte de Gela e Gunther e, a pedido do policial John Driscoll, tira a vida de mais um, Connors, justamente a quem tinha ganhado mais confiança (no fim, Cuddles decide testemunhar contra Smith para que este seja preso).  Não sei pelos  outros que assistiram o filme, mas comecei a torcer, depois de tantos assassinatos, que o protagonista também tivesse um final infeliz, mas não vou contar aqui se isso acontece.

A crueldade não tem limites na película, que mostra com detalhes a sordidez dos criminosos. Um dos capangas dos chefões mata uma pobre menina de 9 anos, atropelando-a em sua bicicleta. Fez isso porque a garota era filha de um rival dos poderosos. O capanga assassino é morto por Tolly, que assim revitaliza sua face heróica, mas em minha humilde opinião, não o salva de seus tantos atos criminosos.

Diferente de O poderoso chefão, Os bons companheiros e outros filmes sobre máfia, A lei dos marginais não foca a rotina de mafiosos e seu estilo de vida. É mais uma trama de vingança que envolve a criminalidade , mas mesmo assim não deixa de mostrar a essência da bandidagem, com mortes e traições que assim dificultam distinguir os vilões dos mocinhos.

Semana Cinerama 2012: sinopses

CYNEMA ANTROPÓFAGO
“Tupi or not tupi, that’s the question”

Como era gostoso o meu francês, Nelson Pereira dos Santos (1970, 83min)
No Brasil de 1554, um aventureiro francês prisioneiro dos Tupinambás escapa da morte graças aos seus conhecimentos de artilharia. Segundo a cultura Tupinambás, é preciso devorar o inimigo para adquirir todos os seus poderes. Enquanto aguarda ser executado, o francês aprende os hábitos dos Tupinambás, se une a uma índia e através dela toma conhecimento de um tesouro enterrado

O vampiro da cinemateca, Jairo Ferreira (1977, 77 min)
Na cidade de São Paulo, entre 1975 e 1977, um jovem jornalista decide romper com as limitações impostas à sua profissão e começå a elaborar o roteiro de um filme. Ele se isola entre quarto paredes e investe furiosamente contra os figurões da cultura de sua época. Sem conseguir crirar um personagem, o jovem entra em crise. Porém, filmando cenas isoladas com amigos e examinando cenas de alguns filmes, ele descobre novas possibilidades de realização. E consegue finalmente inventar personagens.

O bandido da luz vermelha, Rogério Sganzerla (1968, 92 min)
Um assaltante misterioso usa técnicas extravagantes para roubar casas luxuosas de São Paulo. Apelidado pela imprensa de “o bandido da luz vermelha”, invade as casas assobiando canções de Roberto Carlos, traz sempre uma lanterna à mão e conversa longamente com suas vítimas. Debochado e cínico, apresenta uma montagem inovadora e uma linguagem calcada em princípios da antropofagia.
 
CINEMA HOJE
“As ideias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas.”
 
A cidade é uma só?, Adirley Queirós (2011, 73min)
Reflexão sobre os 50 anos de Brasília, tendo como foco a discussão sobre o processo permanente de exclusão territorial e social que uma parcela considerável da população do Distrito Federal e do Entorno sofre, e de como essas pessoas restabelecem a ordem social através do cotidiano.

Riscado, Gustavo Pizzi (2010, 85min)
Bianca é uma atriz cuja carreira ainda não deslanchou. Para se manter ela imita grandes divas do cinema e trabalha divulgando eventos. Sua sorte parece mudar quando consegue o papel principal de uma grande produção internacional. Inspirado por sua personalidade e seu trabalho, o diretor do longa-metragem resolve transformar a protagonista em uma versão da própria Bianca.

Sudoeste, Eduardo Nunes (2011, 100min)
Numa vila isolada do litoral brasileiro onde tudo parece imóvel, Clarice percebe a sua vida durante um único dia, em descompasso com as pessoas que ela encontra e que apenas vivem aquele dia como outro qualquer. Ela tenta entender a sua obscura realidade e o destino das pessoas a sua volta num tempo circular que assombra e desorienta.

FILMES PARA O PRÓXIMO MILÊNIO
“Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

O bravo guerreiro, Gustavo Dahl (1969, 80min)
Jovem deputado da oposição decide mudar para o partido da oposição pensando que só dentro do poder conseguirá fazer alguma coisa pela causa pública. Um cabo eleitoral adverte-o que pelegos tentam tomar o sindicato tendo por motivo um projeto de lei de sua autoria. O deputado vai à Assembléia Geral do sindicato e faz um discurso narrando a sua história política, concluindo que não é mais indicado para defender os sindicalizados. De volta ao lar, encosta o cano de um revólver no céu da boca.

O caso dos irmãos Naves, Luiz Sérgio Person (1969, 92min)
A reconstituição de um caso real, ocorrido no Estado Novo em 1937, na cidade de Araguari (MG). Tudo começa quando um homem foge levando o dinheiro de uma safra de arroz. Os irmãos Naves, sócios do fugitivo, denunciam o caso à polícia. De acusadores passam, no entanto, a réus, por obra e graça do tenente de polícia, que dirige a investigação. Presos e torturados, os Naves são obrigados a confessarem o crime que não cometeram.

Fome de amor, Nelson Pereira dos Santos (1969, 76min)
Casal de brasileiros residente em Nova York decidem voltar ao Brasil para morar na ilha supostamente dele. Porém na ilha mora outro casal, e entre eles nasce uma relação conflituosa e ao mesmo tempo sensual.

O pornógrafo, João Callegaro (1970, 88min)
Ligado à máfia italiana, o paulista Miguel Metralha é contratado para escrever argumentos de histórias pornográficas em uma editora clandestina. Mas um atrito com a dona do negócio gera a falência da empresa e a conseqüente imersão do rapaz e da patroa no mundo do crime, como meio de sobrevivência.

SESSÃO VITRINE
“As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.”
 
Os residentes, Tiago Mata Machado (2010, 120min)
Instalados em uma nova zona autônoma temporária, os residentes passam os seus dias entre pequenos complôs lunáticos, farsas quixotescas e delírios rimbaudianos.

SESSÃO ESPECIAL
“Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.”

Serras da desordem, Andrea Tonacci (2006)
O filme reconstitui a aventura de Carapirú, um índio que vagou durante dez anos pelo Brasil caboclo após escapar de um massacre em sua aldeia. À medida que documentário e ficção se tensionam, o filme reconta de maneira original a grande tragédia que se abateu sobre a população indígena durante o período da modernização conservadora. Uma obra de puro cinema.

CURTA OUTROS TEMPOS
“Só me interessa o que não é meu.”
 
Vadiação, Alexandre Robatto Filho (1954, 8 min)
Alguns homens tocam berimbaus e pandeiros e cantam. Outros se revezam no jogo da capoeira a varias pessoas assistem.

Um dia na rampa, Luiz Paulino dos Santos (1957, 9 min)
Um dia na rampa do mercado modelo de Salvador quando chegavam os saveiros voltando do recôncavo trazendo produtos para comércio na capital.

Histórias em quadrinhos, Rogério Sganzerla e Álvaro de Moya (1969, 10 min)
Documentário que sintetiza a evolução das histórias em quadrinhos, desde Yellow Kid até Spirit.

Uma rua chamada Triumpho, Ozualdo Candeias (1970, 11 min)
A região da Boca do Lixo paulistana e as pessoas do meio cinematográfico que por ali circulavam são registradas em fotografias de autoria do diretor Ozualdo Candeias.

O guru e os guris, Jairo Ferreira (1973, 12 min)
Documentário sobre Maurice Legeard (1922-1997), o mítico fundador do Cinemateca de Santos, e sua paixão pelo cinema. Crítico e realizador, Legeard foi ainda um dos gurus do cineclubismo brasileiro como atividade de vanguarda.

Esta não é a sua vida, Jorge Furtado (1991, 18 min)
Documentário sobre a vida de Noeli Joner Cavalheiro. Noeli mora num subúrbio de Porto Alegre, é dona de casa e tem dois filhos. Nasceu numa cidade do interior, foi pra capital, trabalhou numa padaria, casou. É uma pessoa comum. Mas não existem pessoas comuns.

Ave, Paulo Sacramento (1993, 5 min)
“Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei” (Aleister Crowley)

Noite final menos cinco minutos, Débora Waldman (1994, 10 min)
Enquanto há gasolina um Maverick avança em alta velocidade por estradas vazias.

Trovoada, Carlos Nader (1994, 17 min)
Depoimentos de Bill Viola, Waly Salomão e Antonio Cícero pontuam o vídeo, que trata da sensação muito pessoal de tempo do autor.

Um sol alaranjado, Eduardo Valente (2001, 18 min)
Quatro dias na vida de uma mulher e seu pai.

PRATA DA CASA
“Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval.”

Eu e a loira, Lucas Calmon (2010, 15 min)
Vicente nunca acreditou na história da lendária e mortal Loira do Banheiro, mas o que ele não esperava é que seus caminhos estavam traçados. E não da forma que ele pensava.

Memorial de Francisco, Fernanda Caiado (2011, 18 min)
Fica comigo esta noite.

Adeus, Guru, Daniel Mendonça e Lucas Bueno (2011, 15 min)
O Guru está faminto e precisando de dinheiro. Quando resolve ligar para Flávio, um velho seguidor seu, e arrumar uma grana, o Guru acaba descobrindo que os problemas já não são mais os mesmos de antigamente… e resta saber: onde está a banheira?

Deixo ver a velha chuva, Amanda Seraphico, Maria Del-Vecchio, Arthur Rivelo, Fernanda Novaes, Rafael Spínola, Luiza Junqueira, Lara Mateus e Kevin Rodrigues (2011, 8 min)
Quando a monotonia do cotidiano de um aposentado esbarra com a sensibilidade aguçada pela proximidade com a morte, o que surge é uma nova perspectiva em relação à vida.

Semibreve, Livia Cathiard (2011, 4 min)
“Quem dança em jaula perde seu compasso. Livres encontramos o breve. Livres encontramos o semibreve.”

A bagunça eterna, Clarissa Appelt (2011, 5 min)
Chegou a hora de Pedro arrumar seu quarto depois de alguns anos de bagunça acumulada. Ele começa a guardar suas coisas em caixas, porém a bagunça parece nunca parar de surgir. Enquanto tenta conter a bagunça eterna, Pedro percebe que esta crescendo junto com ela.
 
O quarto conto, Samuel Lobo (2011, 8 min)
Um homem caminha pela cidade. Não é uma noite qualquer.
 
Paradas e Encantarías, André Camargo (2011, 12 min)
Síntese imagética e sonora de um projeto de pesquisa etnográfica que investigou as manifestações culturais tradicionais da Amazônia paraense
 
Fora d’água, Bárbara Bergamaschi (2011, 14 min)
Beatriz é uma jovem solitária que vive com Bóris, seu peixe de estimação. Intrigada com as diferentes pessoas que observa na cidade, resolve realizar uma experiência: cada dia sair de casa fantasiada como uma pessoa diferente.

Ensaio, Bernardo Girauta e Leandro Rodrigues (2012, 18 min)
Um fotógrafo solitário. Uma prostituta. Um dia em Copacabana.
 
COISAS DE AGORA
“A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.”

A amiga americana, Ivo Lopes Araújo e Ricardo Pretti (2009, 19 min)
Paris conhece Thais.

Só mais um filme de amor, Aurélio Aragão (2010, 19 min)
Entre janeiro e julho de 2009, Gabriela e Emanuel estiveram separados. Durante esse período eles trocaram dezenas de vídeos que para eles funcionaram como cartas de amor. Ao longo dos 19 minutos do filme eles tentam recontar essa história.

O último dia, Christopher Faust (2010, 12 min)
Toni irá se mudar. Decide passar seu último dia na cidade bebendo com os amigos de infância.

Lavagem, Shiko (2010, 20 min)
Quando o disco da Xuxa gira ao contrário, não se assuste, muita coisa pode acontecer.

Copyright cops, de Julio Secchin (2011, 6 min)
Um filme sobre direitos autorais, adolescentes e internet.

Jiboia, Rafael Lessa (2011, 17 min)
Consumida pelo desejo, Aurora, uma cabeleireira da Rua Augusta, em São Paulo, aceita fingir ser a mãe de sua amante adolescente, Gracekelly, sem saber que o plano da menina vai colocar à prova seu verdadeiro amor.

Incêndio, Karen Akerman, Miguel Seabra (2011, 23 min)
A melhor aula termina com uma lição.

Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides, Gabriel Martins (2011, 18 min)
Dona Sônia quer vingança.

Quando morremos à noite, Eduardo Morotó (2011, 20 min)
Raúl conhece a menina mais cheia de vida que já encontrou.

Dizem que os cães vêem coisas, de Guto Parente (2012, 12 min)
Um presságio. Fragmento de tempo apenas, porque logo o homem gordo, de ventre imenso, saltou dentro da piscina com o copo de uísque na mão.

Semana Cinerama 2012

“Levei muito tempo para descobrir que o cinema brasileiro e o Brasil são a mesma coisa. Hoje começo a suspeitar que aprender a filmar o Brasil é aprender a fazer o Brasil.” (Gustavo Dahl)

É com todo o prazer do mundo que convidamos a todos para a Semana Cinerama 2012, um evento realizado pelo cineclube Cinerama que apresenta mais de trinta horas de filmes brasileiros, em um período que vai de 1954 até os dias de hoje. Contra todas as elites vegetais, em comunicação com o solo, trazemos uma programação diversificada e pautada pela pluralidade de estilos e ideias, em um momento de grande efervescência na Escola de Comunicação da UFRJ e no cenário cultural brasileiro.

Além dos filmes, a Semana Cinerama pretende estimular a reflexão acerca de questões ligadas à produção audiovisual nacional por meio de encontros com críticos, profissionais e realizadores de diversas gerações, trazendo também para a conversa nossos professores e estudantes, que estarão ativamente convivendo e conflitando com as mais distintas linhas de pensamentos.

Durante os dias 9 a 13 de abril, a Escola de Comunicação da UFRJ vai respirar cinema. Venha purificar os olhos e o espírito no Cinerama. A entrada é gratuita, só chegar!

PROGRAMAÇÃO

Auditório da CPM

Dia 09/04 (segunda-feira)

14h | Os residentes, de Tiago Mata Machado (2010, 120min)
16h | O bravo guerreiro, de Gustavo Dahl (1969, 80min)
18h | A cidade é uma só?, de Adirley Queirós (2011, 73min)
20h | Conversa com Adirley Queirós, Eduardo Valente e Consuelo Lins

Dia 10/04 (terça-feira)

14h | O caso dos irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person (1967, 92min)
16h | Como era gostoso meu francês, de Nelson Pereira dos Santos (1970, 80min)
18h | Curta coisas de agora (curtas recentes)
20h | Conversa com Gabriel Martins (realizador/BH), André Novais (realizador/BH), Christopher Faust (realizador/PR) e Eduardo Morotó (realizador/RJ)

Dia 11/04 (quarta-feira)

14h | Riscado, de Gustavo Pizzi (2010, 85min)
16h | Curta outros tempos (curtas de todas as épocas)
18h | Fome de amor, de Nelson Pereira dos Santos (1969, 76min)
20h | Conversa com Hernani Heffner e Guiomar Ramos sobre Fome de amor

Dia 12/04 (quinta-feira)

14h | O pornógrafo, de João Callegaro (1970, 88min)
16h | Curtas Prata da Casa (produção de alunos da ECO-UFRJ)
18h | O vampiro da cinemateca, de Jairo Ferreira (1977, 77min0
20h | Conversa com Fernando Gerheim, Paulo Oneto e Guiomar Ramos sobre O vampiro da cinemateca

Dia 13/04 (sexta-feira)

14h | O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla (1968, 92min)
16h | Serras da desordem, de Andrea Tonacci (2006, 135min)
18h30 | Sudoeste, de Eduardo Nunes (2011, 100min)
20h15 | Conversa com Eduardo Nunes, Fábio Andrade e Denilson Lopes

Auditório do CFCH – Mesas de reflexão – 18h

Dia 09/04
Distribuição: meios, canais e plataformas para levar mais cinema para mais pessoas
Cavi Borges (produtor, realizador e distribuidor)
Silvia Cruz (Vitrine Filmes)
Talita Arruda (Porta Curtas)
André Gatti (professor, pesquisador e cineclubista)

Dia 10/04
Cosmética da fome, 10 anos depois
Ivana Bentes (professora, pesquisadora e diretora da Escola de Comunicação da UFRJ)
Cezar Migliorin (professor do departamento de cinema da UFF)

Dia 11/04
Produção: o melhor negócio é fazer
Daniela Santos (produtora/RJ)
Ana Bárbara Ramos (realizadora/PB)
Fred Benevides (pesquisador e realizador/CE)
Beatriz Seigner (realizadora/SP)

Dia 12/04
Crítica: pensar o mundo e o cinema a partir de uma folha em branco
José Carlos Avellar (realizador, curador e crítico)
Carlos Alberto Mattos (crítico)
Daniel Caetano (realizador, professor e crítico)

Dia 13/04
O cineasta e o roteirista: dois mundos, um filme
Andrea Tonacci (realizador, fotógrafo e roteirista)
Hilton Lacerda (realizador e roteirista)
Bruno Safadi (realizador e roteirista)

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Estrada para Ythaca

Quatro amigos diretores, quatro personagens, um mito como pano de fundo e um luto por fazer no presente. Estrada Para Ythaca é dirigido e interpretado por Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes. Luiz e Ricardo são irmãos gêmeos; Guto e Pedro, primos. Um filme de família, uma história criada à medida que se fazia, com imagens captadas por uma pequena câmera digital. Cinema, mas também celebração de amizade.

Esse, aliás, é o estímulo propulsor da história. Os personagens são amigos que se reúnem em um bar. Bebem e falam. Resolvem pegar um carro e partir para Ythaca. Para fazer o quê? Talvez buscar uma imagem, algo perdido, um amigo que se foi de maneira prematura.

Esse filme de estrada – literalmente e no título – se faz à medida que as imagens progridem, assim como um romance se escreve palavra após palavra. Há um sentido poético que os guia e estrutura a obra. Por exemplo, não é casual a citação de Vento do Leste, filme de Jean-Luc Godard da sua fase no Grupo Dziga Vertov e no qual aparece Glauber Rocha como ator. Há uma encruzilhada e dois caminhos possíveis. Um, pela direita, que leva ao cinema da aventura; o outro, pela esquerda, que conduz ao cinema do terceiro mundo, “perigoso, divino e maravilhoso”, segundo a música de Caetano Veloso cantada por Gal Costa. Dizem que Godard achou ruim com Glauber por ele ter escolhido esse caminho. Mas, metaforicamente, foi a via adotada por seu cinema, naquela época em que direita e esquerda faziam todo o sentido, um tempo enfeitiçado pela palavra revolução.

Essa citação de cena não aparece por acaso. Ela é um manifesto colocado como sinalização no meio dessa estrada que leva a Ythaca. Fala de uma tomada de posição. Estética em primeiro lugar, de uma geração que encontra suas referências no segundo Glauber, o do exílio, e em seu desafeto e continuador dialético, o “maldito” Rogério Sganzerla.

A essas referências cinematográficas, soma-se aquela ao escritor grego Konstantinos Kavafis e sua Ythaca mítica. A Odisseia é o arquétipo da viagem. Quando Ulisses volta à Ítaca natal não a encontra da mesma forma. A cidade mudou, Penélope não é a mesma e ele mesmo, Ulisses, é diferente do da partida. Tudo flui e altera-se, conforme havia dito aquele outro grego, Heráclito, que não podia se banhar duas vezes no mesmo rio. Porque o rio não era o mesmo, nem ele, Heráclito, continuava sendo o mesmo de outrora. Tudo é devir.

Portanto, de certa forma, esse filme inspirado é também uma viagem sem volta. De jovens que descobrem o luto e, portanto, fazem uma passagem forçada e prematura para o outro lado, o da consciência da finitude humana e da morte. Mas é também a iniciação nesse outro ritual, o cinematográfico, com uma obra de estreia forte, barata e cheia de poesia. Ritos de passagem. Que o caminho seja longo e continue inspirador.

por Luiz Zanin

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/estrada-para-ythaca/