CINERAMA

cinema sem frescura

Sessão Cinerama: “Estrada para Ythaca”

Representando a efervescente cena cultural do Ceará, o Cinerama convida a todos para embarcar nos caminhos da Estrada para Ythaca, um filme realizado por Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Pedro Diógenes e Guto Parente. Inquieto, feito de maneira totalmente independente, é um cinema que sinaliza para diferentes formas de produção e se posiciona a favor da liberdade criativa e da invenção. Em contraponto, vamos exibir o curta-metragem A linguagem da persuasão, de Joaquim Pedro de Andrade, que atenta para a presença cada vez mais imperativa da publicidade em nossa sociedade. A entrada é gratuita e depois da sessão vamos bater um papo sobre os filmes, apareça!

ESTRADA PARA YTHACA (2010, 70min)
Direção, Produção, Roteiro, Fotografia, Som, Montagem:
Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes, Ricardo Pretti.

“Mantenha sempre Ythaca em sua mente.
Chegar lá é sua meta final,
Mas não tenha pressa na viagem.
Melhor que dure vários anos;
E ancore na ilha quando você estiver velho,
com todas as riquezas que você tiver adquirido no caminho,
sem esperar que Ythaca irá enriquecê-lo.
Ythaca terá lhe dado a linda viagem.
Sem ela você nunca teria partido,
E ela não poderia dar-lhe mais…
Tão sábio que serás, com todo conhecimento,
Já terás entendido o que significa Ythaca.”
Konstantínos Kaváfis

Prêmios:

• Melhor Filme – Júri da Crítica e Júri Jovem | 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
• Melhor Trilha Original | 20º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema
• Prêmio Filme Livre | 10ª Mostra do Filme Livre

A LINGUAGEM DA PERSUASÃO (1970, 11min)
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Reflexão sobre um mundo em que não existem refúgios, a existência é passiva, e os destinos são manipulados por indivíduos com habilidades para persuadir através de técnicas de propaganda e marketing. Esse documentário institucional, encomendado pelo SENAC, vai muito além de seu objetivo inicial devido a sua reflexão crítica sobre a sociedade brasileira dos anos 1970. A narração é do escritor Ferreira Gullar.

Dia: 28/03
Hora: 18h30
Local: Auditório da CPM – Escola de Comunicação/UFRJ, Campus da Praia Vermelha
Entrada gratuita

 

Curta a página do Cinerama > https://www.facebook.com/cinecinerama

* as exibições são no formato DVD

Meteorango Kid, o herói intergalático

“10 anos sem estudar, 10 anos vagabundando por aí,
10 anos de maconha, 10 anos marginal.
Cagar é só o que dá vontade de fazer.
Cagar, porra! Mas é duro.
Só eu pra dizer o trabalho que me deu pra chegar até aqui.”

O título de METEORANGO KID (1969) sugere um trash tupiniquim de heróis. Não é, mas pode causar espanto, risos e repulsa falando de coisas um pouco mais sérias. O movimento underground baiano no final dos anos 60 revelou muita gente interessante. André Luiz Oliveira foi um deles. Formado pela faculdade de cinema da UFBA, André juntou atores do teatro marginal, cinema de vanguarda e Novos Baianos para filmar um texto de sua autoria sobre a revolta da juventude classe média.

No centro de tudo, Lula, um jovem crucificado entre o dever da inconformidade política e a moral da família burguesa. Perdido, opta pela alienação como viés mais simples para levar a vida. Seu poder de ser esculhambado e esculhambar é proporcional. O jovem como interseção dos acontecimentos. Como no clássico de Andréa Tonacci, BLABLABLÁ (1968) todos têm e não têm razão. Os discursos políticos são ora inócuos, ora substanciais. E a idéia é mostrar o que a dúvida pode causar na cabeça daquele jovem, cada vez mais sedento pela repulsa alheia.

Passeia entre as melecas que tira enquanto azara meninas, a indiferença pelos protestos políticos dos amigos e os baseados que queima. Lula delira como se fosse um astro do cinema na pele de heróis como Tarzan e Batman. Ao longo do filme, cruza ainda com outras figuras como o amigo que profere as sábias palavras que abrem esse texto. O filme também nos apresenta um personagem isolado, um inacreditável homem vampiro que tenta, em vão, atacar pescoços de mocinhas indefesas.

Lula, assim como André Luiz Oliveira, observa o mundo com um riso irônico, sede de rebeldia e vontade de mandar todos tomarem… Rebeldes com causa e sem porquês. Isso fica claro na seqüência chave onde Lula e dois amigos enrolam e queimam um baseado. O desfecho é a tradução da ideologia humana. A lei do mais forte. Aliás, depois de METEORANGO, fica fácil saber onde Lírio Ferreira e Selton Mello se inspiraram para a “aula de enrolar baseado” no excelente ARIDO MOVIE (2006).

Esteticamente, METEORANGO KID bebe na fonte de Glauber (principalmente CANCER) e Sganzerla (BANDIDO DA LUZ VERMELHA e HQ), flertando também com o neo-realismo italiano e nouvelle vague. A origem Tropicália e a arte de Helio Oiticica também são facilmente identificadas. No entanto, a ousadia faz o filme parecer muito com os primeiros trabalhos de John Waters, onde a prioridade é apresentar um freak show de figuras repulsivas, aterradoras e surrealistas.

METEORANGO KID entrou para a história como um dos principais filmes marginais do cinema brasileiro e ganhou o prêmio do público no Festival de Brasília. André Luiz Oliveira ainda fez alguns poucos trabalhos, entre eles o genial e premiado LOUCO POR CINEMA (1994) que parece um CECIL B. DEMENTED (John Waters) tupiniquim. O cineasta também realizou recentemente dois filmes que não foram para circuito, são eles EM VERDADE VOS DIGO e SAGRADO SEGREDO, ambos de 2005.

por André Blak

fonte: http://udigrudi.com.br/andreblak/?p=47

Sessão Cinerama: “Meteorango Kid, o herói intergalático”

“Só eu pra dizer o trabalho que me deu pra chegar até aqui.” E agora que chegamos, vamos curtir! O Cinerama convida todos para a exibição de Meteorango Kid, o herói intergalático, filme de 1969 realizado pelo cineasta André Luiz Oliveira. Um dos mais representativos exemplos do que se convencionou a chamar de Cinema Marginal, o filme mostra o desconforto do jovem Lula entre a alienação e a rebeldia, zanzando pelas ruas, fumando baseados, perdido entre discursos políticos e a opressiva moral burguesa ao som da ótima trilha composta pelos Novos Baianos. Anos antes um bandido havia sentenciado: quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba. Meteorango é o anti-herói do terceiro mundo, prestes a explodir!

A sessão será aberta pelo curta-metragem Salomé, de Fernando Gerheim, um exemplar do baixo surrealismo, cruzamento de Georges Bataille com Zé do Caixão. No fim da noite, haverá ainda uma conversa com Gerheim sobre os filmes e tudo mais que der na telha. A entrada é gratuita, apareça!

METEORANGO KID – O HERÓI INTERGALÁTICO
André Luiz Oliveira, 1969, 83min
Sinopse: O filme narra, de maneira anárquica e irreverente, as aventuras de Lula, um estudante universitário, no dia do seu aniversário. De forma absolutamente despojada, mostra, sem rodeios, o perfil de um jovem desesperado, representante de uma geração oprimida pela ditadura militar e pela moral retrógrada de uma sociedade passiva e hipócrita. O anti-herói intergaláctico atravessa este labirinto cotidiano através das suas fantasias e delírios libertários, deixando atrás de si um rastro de inconformismo e um convite à rebelião em todos os níveis.

SALOMÉ
Fernando Gerheim, 2010, 20min
Sinopse: Um exemplar do baixo surrealismo. Um cruzamento de Georges Bataille com Zé do Caixão. Cinema marginal digital. O defeito de fabricação da indústria dos sonhos. O vídeo pensa o cinema. Tecnoartesania ou morte.

Dia: 21/03
Hora: 18h30
Local: Auditório da CPM – Escola de Comunicação/UFRJ, Campus da Praia Vermelha
Entrada gratuita

 

As exibições são no formato DVD.

Noite de estreia

Veja como foi a sessão de abertura do Cinerama em 2012.

E aí, vai ficar quarta à noite em casa?

“Zabriskie Point”, de Michelangelo Antonioni

– Você realmente roubou aquela coisa? Por quê?

– Eu precisava sair do chão.

          A vida é cheia de som e fúria em Zabriskie Point, onde não há terno nem sobrenome e Antonioni pode ser visto baratinado, distribuindo zooms desnorteantes, ensandecidos, com o intuito de capturar o espírito de uma América igualmente atribulada. E aqui, por mais que apontem defeitos de lógica e insistam em cobrar coerência, é o espírito que me fascina: poucas vezes o cinema conseguiu ser tão rock’n’roll. As conseqüências da envergadura política e do espírito livre da obra fazem com que se mantenha acesa a chama da transgressão, do desejo, além de reanimar a pulsão de vida adormecida pela rotina que existe em nós.

              Acho quase impossível falar de Zabriskie Point sem soar hiperbólico ou repetitivo, mas cada vez que o vejo é como se a potência das imagens e do discurso acionasse uma descarga de energia e liberdade que me deixa com a cabeça fervendo, como se cada molécula do meu corpo estivesse numa dança descontrolada e feroz. O lugar representa o ponto geográfico mais baixo dos Estados Unidos da América, talvez por isso seja preciso alçar vôos estratosféricos, fugir de uma realidade sufocante e rarefeita para encontrar o sexo nas areias do deserto.

          A liberdade existe, ao longe, como uma velha lembrança envolta por uma nuvem de poeira, bastante desgastada pela burocracia e por outras opressões sociais. O mundo é um caos, mas Antonioni nos convida a explodi-lo. E quando um poeta resolve fazer barulho, é obrigação do universo se calar para ouvi-lo.

por Samuel Lobo

Sessão Cinerama: “Zabriskie Point”, de Michelangelo Antonioni

O explosivo libelo anti-caretice do cineasta italiano Michelangelo Antonioni aquece a sala do Cinerama nesta quarta, dia 14. “A vida é cheia de som e fúria em Zabriskie Point, onde não há terno nem sobrenome e Antonioni pode ser visto baratinado, distribuindo zooms desnorteantes, ensandecidos, com o intuito de capturar o espírito de uma América igualmente atribulada. E aqui, por mais que apontem defeitos de lógica e insistam em cobrar coerência, é o espírito que fascina: poucas vezes o cinema conseguiu ser tão rock’n’roll.” Venha purificar os olhos e o espírito sob influência do poeta italiano no Cinerama, a entrada é gratuita. Apareça!

ZABRISKIE POINT
Michelangelo Antonioni, 1970, 110min.
Sinopse: Um retrato poético do fim dos anos 60 nos Estados Unidos através da história de dois jovens foragidos ao sistema: ele por ter assassinado um policial durante um motim estudantil, ela por tê-lo encontrado. Antonioni, neste seu único filme nos EUA, assina uma das obras mais contudentes e ferozmente anti-capitalistas que o cinema já assistiu, logo no coração da besta: são aviões roubados, corpos em plena libertação, a opressão causada pela publicidade, os paraísos artificiais das drogas culminando num final que prima pela apoteose. A trilha sonora é assinada por Pink Floyd e possui canções de Grateful Dead e The Rolling Stones.

A exibição é no formato DVD

Sessão Cinerama: “Noite de estreia”, de John Cassavetes

“Noite de estreia”, de John Cassavetes

Myrtle Gordon (Gena Rowlands) é uma prima-dona. Todos os profissionais que convivem com a atriz, personagem principal de “Noite de Estréia” (Opening Night, EUA, 1977), medem as palavras antes de se dirigir a ela. Eles se desdobram para evitar que a insegurança crônica a fragilize, e a cercam de elogios, muitas vezes ditos só da boca para fora. Todos repetem que a amam. Vivem lhe abraçando e beijando, porque sabem que ela adora contato físico. Tantos paparicos não impedem que Myrtle afunde mais e mais em crise pessoal, à medida que aprofunda os ensaios de uma nova peça, com estréia marcada para Nova York dentro de alguns dias.

“Noite de Estréia”, nono trabalho assinado por John Cassavetes, é muito mais do que o brilhante e minucioso estudo de personagem sugerido pela superfície do filme. Trata-se de um daqueles títulos que oferecem inúmeras possibilidades de leitura, diversos ângulos de abordagem. Para alguns, o filme pode ser sobre o medo da velhice; para outros, uma meditação metalingüística sobre a relação entre ator e personagem (quem conhece a obra de Cassavetes sabe o quanto esta relação era fundamental para ele). Há quem veja no colapso de Myrtle, cuja intimidade o filme desnuda com firmeza e profundidade desconcertantes, uma reflexão sobre o tema predileto do diretor, o amor (no caso, a falta dele).

São todas leituras válidas. Existem outras possibilidades, todas densas, inteligentes, vivas. “Noite de Estréia” é um filme maduro de um dos maiores criadores do cinema norte-americano. Foi achincalhado injustamente pela crítica na época do lançamento original, e só muitos anos depois (mais precisamente após a morte de Cassavetes, em 1989) reabilitado. A multiplicidade de significados confere à produção um lugar especial na galeria dos melhores trabalhos do cineasta. Considerando a altíssima qualidade geral da obra do diretor, não é pouca coisa. De qualquer forma, é preciso coragem – por parte do público – para mergulhar com vontade na crise de meia-idade vivida pela personagem principal, interpretada com a intensidade e a exuberância que sempre caracterizaram Gena Rowlands, esposa de Cassavetes e atriz de envergadura gigantesca.

Para os personagens do longa-metragem, a crise de Myrtle é inexplicável. Entre afagos e elogios insinceros à estrela, o trio de ferro da peça (formado por diretor, produtor e autora, mais dois atores com quem ela forma um triângulo amoroso no palco), eles quebram a cabeça para compreender as causas do colapso nervoso da atriz. Para a platéia, que observa a intimidade da mulher de lugar privilegiado, o problema é claro como água. Apesar de afirmar que não consegue captar a alma do personagem, a situação é exatamente inversa. Myrtle se reconhece por inteiro no papel, e não gosta do que vê: uma mulher de meia-idade que perdeu a beleza e não consegue mais despertar desejo sexual nos homens. Temendo que representar a si mesma revele sobre ela mais do que gostaria, a atriz afunda em depressão.

A partir da fantástica atuação de Gena Rowlands, Cassavetes reflete sobre o medo da velhice e as conseqüências negativas da idade nas pessoas dependentes da beleza física. Quando Myrtle se vê forçada a encarar a situação, começa a se dar conta de que a melhor parte da vida dela já passou, e que o futuro que lhe aguarda será solitário, sem marido ou filhos – ou seja, sem amor. Cassavetes maneja a situação de maneira astuta, mergulhando na dor da protagonista sem, no entanto, verbalizá-la. Desta forma, a platéia e os demais personagens imaginam que a atriz está tendo um colapso nervoso, quando a verdade é bem diferente.

Na verdade, Myrtle não está nem perto de perder a lucidez, e deixa isto evidente quando, numa discussão aberta com a equipe, já perto do final do filme, faz uma pungente e dolorosa auto-análise da situação. “Meu problema não é interpretar bem. Eu sei interpretar uma velha. Mas se eu fizer o papel deste modo, terei arruinado minha carreira. Porque o público vai passar a me aceitar como velha e eu não mais receberei bons papéis”, raciocina, em momento agressivo que dispara contra a política de Hollywood para atrizes acima dos 40 anos. Está aí mais uma leitura para a sombria jornada íntima de Myrtle. Ao lado da Mabel de “Uma Mulher Sob Influência” (1974), também interpretada por Rowlands, Myrtle é a personagem mais complexa e fascinante da obra de Cassavetes.

Como se não bastasse tantas virtudes, “Noite de Estréia” também trava um dos mais instigantes diálogos entre teatro e cinema já registrados em película. Para poder acompanhar de perto o sofrimento da estrela, a câmera de Cassavetes invade o palco e as cochias sem constrangimento, muitas vezes sem anunciar à platéia quem está em cena, se Myrtle (a atriz) ou a personagem que ela interpreta. A fotografia, de Al Ruban, é elegante e sombria, um pouco distante da crueza que marca a maior parte da obra de Cassavetes, mas ainda despojada, e enfatiza com perfeição a simplicidade da trama, que é conduzida com segurança e mão firme pelo diretor.

Às vezes parece que Cassavetes vai embarcar em alguma maluquice (Myrtle tem visões de uma garota morta e vai a sessões espíritas), mas nenhuma dessas cenas termina como um filme comercial faria. “Noite de Estréia” é sempre imprevisível e estimulante. O crítico Roger Ebert diz que Cassavetes parece, em seus títulos, levantar a cortina de uma peça que já estava rolando. Esta descrição aplica-se quase literalmente a “Noite de Estréia”, e eu acrescentaria que, ao baixar a cortina, o cineasta sugere que a peça vai continua acontecendo. É exatamente por isso que os filmes dele passam vívida impressão de mostrarem a vida, ao vivo e a cores. Quem gosta disso tem aqui material para se esbaldar.

por Rodrigo Carreiro

Fonte: http://www.cinereporter.com.br/criticas/noite-de-estreia/

Um breve olhar – A Separação

por Alice Turnbull
     Vencedor de diversos prêmios, o longa iraniano A Separação, (2011), dirigido por Asghar Farhadi, relata a história dramática de um casal que enfrenta um dilema: deixar o país para oferecer um futuro melhor para a filha ou ficar no Irã e cuidar de um familiar que sofre do mal de Alzheimer.
     A trama se inicia com a recusa de Nader (Peyman Moadi) em deixar o pai doente e partir para os Estados Unidos com sua mulher, Simin (Leila Hatami), e sua filha, Termeh (Sarina Farhadi, filha do diretor). Obstinada, Simin pede a separação a Nader, já que, de acordo com as leis iranianas, somente mulheres solteiras podem viajar sem a companhia de um homem. Para a decepção de Simin, o marido aceita o divórcio, mas não permite que a filha viaje. Sem a separação e sentindo-se rejeitada, a mulher volta para a casa da mãe.
     Nader, sem ter quem cuide do pai, contrata Razieh (Sareh Bayat), muçulmana ortodoxa, que somente aceita o emprego para ajudar o marido endividado. Contudo, uma série de acontecimentos se soma a barreiras culturais e religiosas, tornando a tarefa muito mais complicada.
     Usando esse recorte, Farhadi faz uma crítica sutil da sociedade iraniana e seus valores, o que torna o filme mais suave, porém não menos realista e, ao mesclar elementos universais do drama com referências ocidentais, termina por criar uma ponte com o olhar ocidental.
     Uma ótima porta de entrada para aqueles que ainda não se aventuraram pelos filmes iranianos.

Orgia ou O Homem Que Deu Cria

por Samuel Lobo

      “Só me interessa o que não é meu”. A frase, escrita por Oswald de Andrade em 1928 em seu Manifesto Antropófago, descreve certeiramente a inquietação que perturbava a esfera artística brasileira em fins da década de 1960. Nas artes plásticas, Lygia Clark e Helio Oiticica propunham uma ressignificação da relação entre corpo e objeto; na literatura, José Agrippino de Paula espiava a transa entre Marilyn Monroe e Marlon Brando e construía uma epopeia genuinamente irônica, com aviões que sobrevoavam mares de gelatina verde; na música, a Tropicália mandava aquele abraço para a bossa nova e reorientava o carnaval, enquanto o cinema explodia as estruturas e matava à navalhadas a família brasileira. O horror. E quem disse que não há beleza no horror?

      Em meio a esse cenário nervoso, asfixiado por um governo militar que não permitia espaços e dopado por uma economia em ascensão e pela conquista do tricampeonato mundial de futebol, surge Orgia ou O Homem Que Deu Cria, único filme do cineasta e escritor João Silvério Trevisan, realizado em 1970. Já a partir do título se instaura uma provocação: em uma orgia não há regras nem limitações, tudo é permitido. Portanto, indiretamente, o que o título sugere é que estamos diante de uma obra livre, desimpedida, um cinema sem limites e contra todas as catequeses.

      Praticamente não há história. O enredo inicia-se com um homem do interior que assassina o pai e parte rumo à cidade grande. No meio do caminho vários personagens quixotescos se juntam a ele e compõem uma fauna riquíssima, tipicamente brasileira, onde convivem travestis, aleijados, caipiras, um cangaceiro grávido da Volkswagen e um anjo de asa quebrada, formando um microcosmo peculiar e ilustrativo da nossa miscigenação social em um momento de desespero. Aqui, para o bem e para o mal, tudo termina em carnaval.

      O filme é um ataque frontal a todas as estruturas pré-estabelecidas que paralisam o poder de criação e ao reducionismo que simplifica nossas complexidades. Até mesmo o próprio Cinema Marginal, ao qual se alinha em agonia e desejo de ruptura, é tratado como um obstáculo a ser superado. Logo no início, há uma cena em que Ozualdo Candeias, autor de A Margem (1967), considerado o primeiro filme de estética marginal, aparece sendo amarrado e morto pelo próprio filho. O novo Édipo, sem arrependimentos, livre.

      A posição ofensiva atravessa todos os aspectos da narrativa. Os atores estão em um transe que não cessa, gritam, correm, não respeitam nem mesmo a fronteira do quadro, num desarranjo total do corpo. Filmado inteiramente durante o dia, à luz do Sol, o filme encontra na contundência o tom ideal para romper com as tradições: há citações a Deus e o Diabo na Terra do Sol, a Macunaíma e a O Bandido da Luz Vermelha, todas subvertidas e reencarnadas sob o espírito do deboche e da avacalhação. A antropofagia é um elemento recorrente ao longo do filme, e o próprio desfecho, com índios comendo a criança que nasce do cangaceiro, já sinaliza um momento posterior ao do conceito lançado por Oswald: nossa fome é tanta que devemos devorar também a nós mesmos.

      Devido ao atrevimento de seu discurso e à sua encenação violenta, Orgia ou O Homem Que Deu Cria foi censurado pelos militares e nunca chegou a ser liberado. Ao trazê-lo novamente à tona, o Cinerama tem o intuito de promover o acesso a uma obra obscura do nosso cinema, instigar o espírito e acrescentar novos temperos a um farto banquete de pratos exóticos.