CINERAMA

cinema sem frescura

Arquivos de tags: cinerama

Doméstica

Image

O filme Doméstica me decepcionou em 2 pontos: o primeiro, o título; o segundo, a ausência de um fim. Mas não me entenda mal, o filme é muito bom e me surpreendeu, como poucos filmes brasileiros.

Pouco antes de começar, uma pequena apresentação foi feita aos espectadores na qual ficamos sabendo de quê se tratava o filme. Por isso minha estranheza desde a 1ª imagem: Doméstica. Um título como esse, no singular, me leva a crer que eu estaria prestes a assistir a um filme sobre características gerais, típicas, de pessoas que desempenham essa função de empregada doméstica. O título no singular denota a descrição, a caracterização de um arquétipo.

Porém, não foi essa a descrição feita na apresentação. E, afinal, não foi isso que o filme mostrou. O filme era sobre domésticas, algumas delas apenas, todas com uma característica em comum: o tempo prolongado de trabalho em uma mesma casa. Provavelmente, se a história do filme não nos tivesse sido contada previamente, esse detalhe ter-me-ia passado despercebido.

Dito isto, sigamos em frente, ao começo do filme: Domésticas, se me permite.

Minha impressão geral foi muito boa! O filme retrata desde cenas tristes, dramas familiares, personagens em crise e situações constrangedoras até um pouco da mais pura comédia: cenas hilárias, personagens divertidíssimas e conversas de absoluta leveza.

Foi também muito interessante ver que o diretor (ou diretora) escolheu retratar desde famílias ricas, com carro exclusivo para uso da doméstica/ motorista, até um domicílio paupérrimo, onde a empregada protagonista era empregada de uma empregada (com redundância!).

Na mão de cinegrafistas amadores, nós somos levados ao interior dos lares onde domésticas trabalhavam há anos, tendo visto o crescimento de seus pequenos patrões até se tornarem adolescentes. Encarregados das filmagens e entrevistas, esses pequenos diretores tornam-se personagens do filme ao descobrirem histórias inimagináveis contadas pelas domésticas que estiveram presentes em suas vidas desde o princípio. Mérito, claro, da direção, que selecionou as cenas de forma muito inteligente para introduzir nas histórias os próprios cinegrafistas.

E nesse estilo de filmagem, muitas vezes tremido, algumas vezes estático, mas sempre inocente, nos damos conta de que aquelas pessoas que passaram mais de uma década cuidando dos filhos dos outros, criando-os, educando essas crianças que não são suas, essas pessoas também têm seus problemas, suas vidas pessoais, suas crianças.

O 2º ponto que me desagradou foi a inexistência de um fim. Eu pude perceber, através da escolha da ordem das histórias das 6 domésticas, a criação de um início, brando, que evoluiu para histórias mais profundas. Porém, a partir destas eu não vi a elaboração ou um encaminhamento de um fim, uma conclusão. Não me foi clara a criação de nenhuma tese a partir do que foi apresentado. Claro, eu não esperava que a opinião do diretor (ou diretora) nos fosse explicitada. Porém, da metade para o final do filme, tudo o que eu vi foi uma sequência de contos, desconexos entre si, com níveis dramáticos crescentes, até que tudo termina, a tela fica preta, e o filme acabou. Em minha opinião, o filme acabou no meio. Faltou um fechamento.

Felipe Telles Lesbaupin

Michel Marie, Godard e a Nouvelle Vague

Image

No próximo dia 23 de maio, às 15h, a convite do programa de pós-graduação em Comunicação da ECO/UFRJ e da editora Papirus, o historiador do cinema Michel Marie faz uma conferência no Campus da Praia Vermelha e lança o seu livro A Nouvelle Vague e Godard, editado recentemente no Brasil.

Michel Marie é professor emérito da Universidade de Paris 3, onde criou o programa de ensino em Estudos Cinematográficos. Ele deu aulas também em Montréal (Université de Montréal) e no Brasil (UNICAMP). Criou e dirige a coleção Cinema e Artes Visuais das edições Armand Colin. Publicou três clássicos dos estudos cinematográficos, com Jacques Aumont: Estética do filme (traduzido em 11 línguas), A análise dos filmes e o Dicionário teórico e crítico do cinema; recentemente publicou Le Cinéma muet, Guide des études cinématographiques, Lire les images de cinéma, Les grands pervers au cinéma, Les films maudits.

O livro A Nouvelle Vague e Godard faz uma apresentação histórica de um dos movimentos mais importantes da história do cinema mundial, elegendo Acossado, primeiro filme de JeanLuc Godard, como manifesto estético do movimento.

A conferência e o lançamento do livro, acompanhados de projeções de filmes de Godard, acontecem no auditório da CPM, a partir das 15h. A conferência de Michel Marie terá tradução consecutiva.

A LEI DOS MARGINAIS, de Samuel Fuller (1961)

Marginalidade e matança

por Thor Weglinski

Foras da lei. Esse é o grande foco do filme A lei dos marginais (Underworld U.S.A, de 1961), exibido nesta quarta 18/04/2012 no Cinerama. A produção, dirigida por Samuel Fuller, começa com um furto, quando Tolly Devlin, ainda menino, rouba o relógio e carteira de um bêbado. Em seguida, outro garoto tira de Tolly tudo o que este tinha conseguido, numa sucessão de delitos que já sinalizam a grande temática do longa.

Devlin é o grande protagonista da trama, aos catorze anos e já órfão de mãe, perde também o pai assassinado por bandidos. Vinte anos depois, está na cadeia e descobre que no mesmo presídio está Vic Farrar, um dos homens que matou o seu progenitor. Farrar já está velho e doente, mas Tolly consegue que o assassino em seus últimos suspiros de vida diga quem foram os outros que tiraram a vida de seu ente querido: Gela, Smith e Gunther.

A partir dali, a película narra a empreitada de vingança de Devlin que, fora da prisão, descobre que os outros assassinos de seu pai são agora grandes chefões do crime. Em seus primeiros passos, sua imagem de herói é enaltecida quando salva a bela Cuddles de ser espancada por um dos capangas dos poderosos, e se envolve com a moça durante a trama.

Para conseguir seu objetivo, Tolly se infiltra no grupo de outro bandido, Connors, e assim se aproxima e ganha confiança dos chefões. A partir dali começa uma sequência de mortes armadas pelo protagonista, e a estética da violência é intensa para mostrar a vontade de revanche. Sua imagem de mocinho muda, e vai a pergunta: será ele também um fora da lei? O foco do diretor Samuel Fuller é a criminalidade, não apenas ao mostrar os bandidos usuais, mas também aqueles que pensamos que não são, mas que se tornam.

Tolly arma a morte de Gela e Gunther e, a pedido do policial John Driscoll, tira a vida de mais um, Connors, justamente a quem tinha ganhado mais confiança (no fim, Cuddles decide testemunhar contra Smith para que este seja preso).  Não sei pelos  outros que assistiram o filme, mas comecei a torcer, depois de tantos assassinatos, que o protagonista também tivesse um final infeliz, mas não vou contar aqui se isso acontece.

A crueldade não tem limites na película, que mostra com detalhes a sordidez dos criminosos. Um dos capangas dos chefões mata uma pobre menina de 9 anos, atropelando-a em sua bicicleta. Fez isso porque a garota era filha de um rival dos poderosos. O capanga assassino é morto por Tolly, que assim revitaliza sua face heróica, mas em minha humilde opinião, não o salva de seus tantos atos criminosos.

Diferente de O poderoso chefão, Os bons companheiros e outros filmes sobre máfia, A lei dos marginais não foca a rotina de mafiosos e seu estilo de vida. É mais uma trama de vingança que envolve a criminalidade , mas mesmo assim não deixa de mostrar a essência da bandidagem, com mortes e traições que assim dificultam distinguir os vilões dos mocinhos.

Sessão Cinerama: “Estrada para Ythaca”

Representando a efervescente cena cultural do Ceará, o Cinerama convida a todos para embarcar nos caminhos da Estrada para Ythaca, um filme realizado por Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Pedro Diógenes e Guto Parente. Inquieto, feito de maneira totalmente independente, é um cinema que sinaliza para diferentes formas de produção e se posiciona a favor da liberdade criativa e da invenção. Em contraponto, vamos exibir o curta-metragem A linguagem da persuasão, de Joaquim Pedro de Andrade, que atenta para a presença cada vez mais imperativa da publicidade em nossa sociedade. A entrada é gratuita e depois da sessão vamos bater um papo sobre os filmes, apareça!

ESTRADA PARA YTHACA (2010, 70min)
Direção, Produção, Roteiro, Fotografia, Som, Montagem:
Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes, Ricardo Pretti.

“Mantenha sempre Ythaca em sua mente.
Chegar lá é sua meta final,
Mas não tenha pressa na viagem.
Melhor que dure vários anos;
E ancore na ilha quando você estiver velho,
com todas as riquezas que você tiver adquirido no caminho,
sem esperar que Ythaca irá enriquecê-lo.
Ythaca terá lhe dado a linda viagem.
Sem ela você nunca teria partido,
E ela não poderia dar-lhe mais…
Tão sábio que serás, com todo conhecimento,
Já terás entendido o que significa Ythaca.”
Konstantínos Kaváfis

Prêmios:

• Melhor Filme – Júri da Crítica e Júri Jovem | 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
• Melhor Trilha Original | 20º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema
• Prêmio Filme Livre | 10ª Mostra do Filme Livre

A LINGUAGEM DA PERSUASÃO (1970, 11min)
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Reflexão sobre um mundo em que não existem refúgios, a existência é passiva, e os destinos são manipulados por indivíduos com habilidades para persuadir através de técnicas de propaganda e marketing. Esse documentário institucional, encomendado pelo SENAC, vai muito além de seu objetivo inicial devido a sua reflexão crítica sobre a sociedade brasileira dos anos 1970. A narração é do escritor Ferreira Gullar.

Dia: 28/03
Hora: 18h30
Local: Auditório da CPM – Escola de Comunicação/UFRJ, Campus da Praia Vermelha
Entrada gratuita

 

Curta a página do Cinerama > https://www.facebook.com/cinecinerama

* as exibições são no formato DVD

Sessão Cinerama: “Meteorango Kid, o herói intergalático”

“Só eu pra dizer o trabalho que me deu pra chegar até aqui.” E agora que chegamos, vamos curtir! O Cinerama convida todos para a exibição de Meteorango Kid, o herói intergalático, filme de 1969 realizado pelo cineasta André Luiz Oliveira. Um dos mais representativos exemplos do que se convencionou a chamar de Cinema Marginal, o filme mostra o desconforto do jovem Lula entre a alienação e a rebeldia, zanzando pelas ruas, fumando baseados, perdido entre discursos políticos e a opressiva moral burguesa ao som da ótima trilha composta pelos Novos Baianos. Anos antes um bandido havia sentenciado: quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba. Meteorango é o anti-herói do terceiro mundo, prestes a explodir!

A sessão será aberta pelo curta-metragem Salomé, de Fernando Gerheim, um exemplar do baixo surrealismo, cruzamento de Georges Bataille com Zé do Caixão. No fim da noite, haverá ainda uma conversa com Gerheim sobre os filmes e tudo mais que der na telha. A entrada é gratuita, apareça!

METEORANGO KID – O HERÓI INTERGALÁTICO
André Luiz Oliveira, 1969, 83min
Sinopse: O filme narra, de maneira anárquica e irreverente, as aventuras de Lula, um estudante universitário, no dia do seu aniversário. De forma absolutamente despojada, mostra, sem rodeios, o perfil de um jovem desesperado, representante de uma geração oprimida pela ditadura militar e pela moral retrógrada de uma sociedade passiva e hipócrita. O anti-herói intergaláctico atravessa este labirinto cotidiano através das suas fantasias e delírios libertários, deixando atrás de si um rastro de inconformismo e um convite à rebelião em todos os níveis.

SALOMÉ
Fernando Gerheim, 2010, 20min
Sinopse: Um exemplar do baixo surrealismo. Um cruzamento de Georges Bataille com Zé do Caixão. Cinema marginal digital. O defeito de fabricação da indústria dos sonhos. O vídeo pensa o cinema. Tecnoartesania ou morte.

Dia: 21/03
Hora: 18h30
Local: Auditório da CPM – Escola de Comunicação/UFRJ, Campus da Praia Vermelha
Entrada gratuita

 

As exibições são no formato DVD.

“Zabriskie Point”, de Michelangelo Antonioni

– Você realmente roubou aquela coisa? Por quê?

– Eu precisava sair do chão.

          A vida é cheia de som e fúria em Zabriskie Point, onde não há terno nem sobrenome e Antonioni pode ser visto baratinado, distribuindo zooms desnorteantes, ensandecidos, com o intuito de capturar o espírito de uma América igualmente atribulada. E aqui, por mais que apontem defeitos de lógica e insistam em cobrar coerência, é o espírito que me fascina: poucas vezes o cinema conseguiu ser tão rock’n’roll. As conseqüências da envergadura política e do espírito livre da obra fazem com que se mantenha acesa a chama da transgressão, do desejo, além de reanimar a pulsão de vida adormecida pela rotina que existe em nós.

              Acho quase impossível falar de Zabriskie Point sem soar hiperbólico ou repetitivo, mas cada vez que o vejo é como se a potência das imagens e do discurso acionasse uma descarga de energia e liberdade que me deixa com a cabeça fervendo, como se cada molécula do meu corpo estivesse numa dança descontrolada e feroz. O lugar representa o ponto geográfico mais baixo dos Estados Unidos da América, talvez por isso seja preciso alçar vôos estratosféricos, fugir de uma realidade sufocante e rarefeita para encontrar o sexo nas areias do deserto.

          A liberdade existe, ao longe, como uma velha lembrança envolta por uma nuvem de poeira, bastante desgastada pela burocracia e por outras opressões sociais. O mundo é um caos, mas Antonioni nos convida a explodi-lo. E quando um poeta resolve fazer barulho, é obrigação do universo se calar para ouvi-lo.

por Samuel Lobo

Orgia ou O Homem Que Deu Cria

por Samuel Lobo

      “Só me interessa o que não é meu”. A frase, escrita por Oswald de Andrade em 1928 em seu Manifesto Antropófago, descreve certeiramente a inquietação que perturbava a esfera artística brasileira em fins da década de 1960. Nas artes plásticas, Lygia Clark e Helio Oiticica propunham uma ressignificação da relação entre corpo e objeto; na literatura, José Agrippino de Paula espiava a transa entre Marilyn Monroe e Marlon Brando e construía uma epopeia genuinamente irônica, com aviões que sobrevoavam mares de gelatina verde; na música, a Tropicália mandava aquele abraço para a bossa nova e reorientava o carnaval, enquanto o cinema explodia as estruturas e matava à navalhadas a família brasileira. O horror. E quem disse que não há beleza no horror?

      Em meio a esse cenário nervoso, asfixiado por um governo militar que não permitia espaços e dopado por uma economia em ascensão e pela conquista do tricampeonato mundial de futebol, surge Orgia ou O Homem Que Deu Cria, único filme do cineasta e escritor João Silvério Trevisan, realizado em 1970. Já a partir do título se instaura uma provocação: em uma orgia não há regras nem limitações, tudo é permitido. Portanto, indiretamente, o que o título sugere é que estamos diante de uma obra livre, desimpedida, um cinema sem limites e contra todas as catequeses.

      Praticamente não há história. O enredo inicia-se com um homem do interior que assassina o pai e parte rumo à cidade grande. No meio do caminho vários personagens quixotescos se juntam a ele e compõem uma fauna riquíssima, tipicamente brasileira, onde convivem travestis, aleijados, caipiras, um cangaceiro grávido da Volkswagen e um anjo de asa quebrada, formando um microcosmo peculiar e ilustrativo da nossa miscigenação social em um momento de desespero. Aqui, para o bem e para o mal, tudo termina em carnaval.

      O filme é um ataque frontal a todas as estruturas pré-estabelecidas que paralisam o poder de criação e ao reducionismo que simplifica nossas complexidades. Até mesmo o próprio Cinema Marginal, ao qual se alinha em agonia e desejo de ruptura, é tratado como um obstáculo a ser superado. Logo no início, há uma cena em que Ozualdo Candeias, autor de A Margem (1967), considerado o primeiro filme de estética marginal, aparece sendo amarrado e morto pelo próprio filho. O novo Édipo, sem arrependimentos, livre.

      A posição ofensiva atravessa todos os aspectos da narrativa. Os atores estão em um transe que não cessa, gritam, correm, não respeitam nem mesmo a fronteira do quadro, num desarranjo total do corpo. Filmado inteiramente durante o dia, à luz do Sol, o filme encontra na contundência o tom ideal para romper com as tradições: há citações a Deus e o Diabo na Terra do Sol, a Macunaíma e a O Bandido da Luz Vermelha, todas subvertidas e reencarnadas sob o espírito do deboche e da avacalhação. A antropofagia é um elemento recorrente ao longo do filme, e o próprio desfecho, com índios comendo a criança que nasce do cangaceiro, já sinaliza um momento posterior ao do conceito lançado por Oswald: nossa fome é tanta que devemos devorar também a nós mesmos.

      Devido ao atrevimento de seu discurso e à sua encenação violenta, Orgia ou O Homem Que Deu Cria foi censurado pelos militares e nunca chegou a ser liberado. Ao trazê-lo novamente à tona, o Cinerama tem o intuito de promover o acesso a uma obra obscura do nosso cinema, instigar o espírito e acrescentar novos temperos a um farto banquete de pratos exóticos.