CINERAMA

cinema sem frescura

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A LEI DOS MARGINAIS, de Samuel Fuller (1961)

Marginalidade e matança

por Thor Weglinski

Foras da lei. Esse é o grande foco do filme A lei dos marginais (Underworld U.S.A, de 1961), exibido nesta quarta 18/04/2012 no Cinerama. A produção, dirigida por Samuel Fuller, começa com um furto, quando Tolly Devlin, ainda menino, rouba o relógio e carteira de um bêbado. Em seguida, outro garoto tira de Tolly tudo o que este tinha conseguido, numa sucessão de delitos que já sinalizam a grande temática do longa.

Devlin é o grande protagonista da trama, aos catorze anos e já órfão de mãe, perde também o pai assassinado por bandidos. Vinte anos depois, está na cadeia e descobre que no mesmo presídio está Vic Farrar, um dos homens que matou o seu progenitor. Farrar já está velho e doente, mas Tolly consegue que o assassino em seus últimos suspiros de vida diga quem foram os outros que tiraram a vida de seu ente querido: Gela, Smith e Gunther.

A partir dali, a película narra a empreitada de vingança de Devlin que, fora da prisão, descobre que os outros assassinos de seu pai são agora grandes chefões do crime. Em seus primeiros passos, sua imagem de herói é enaltecida quando salva a bela Cuddles de ser espancada por um dos capangas dos poderosos, e se envolve com a moça durante a trama.

Para conseguir seu objetivo, Tolly se infiltra no grupo de outro bandido, Connors, e assim se aproxima e ganha confiança dos chefões. A partir dali começa uma sequência de mortes armadas pelo protagonista, e a estética da violência é intensa para mostrar a vontade de revanche. Sua imagem de mocinho muda, e vai a pergunta: será ele também um fora da lei? O foco do diretor Samuel Fuller é a criminalidade, não apenas ao mostrar os bandidos usuais, mas também aqueles que pensamos que não são, mas que se tornam.

Tolly arma a morte de Gela e Gunther e, a pedido do policial John Driscoll, tira a vida de mais um, Connors, justamente a quem tinha ganhado mais confiança (no fim, Cuddles decide testemunhar contra Smith para que este seja preso).  Não sei pelos  outros que assistiram o filme, mas comecei a torcer, depois de tantos assassinatos, que o protagonista também tivesse um final infeliz, mas não vou contar aqui se isso acontece.

A crueldade não tem limites na película, que mostra com detalhes a sordidez dos criminosos. Um dos capangas dos chefões mata uma pobre menina de 9 anos, atropelando-a em sua bicicleta. Fez isso porque a garota era filha de um rival dos poderosos. O capanga assassino é morto por Tolly, que assim revitaliza sua face heróica, mas em minha humilde opinião, não o salva de seus tantos atos criminosos.

Diferente de O poderoso chefão, Os bons companheiros e outros filmes sobre máfia, A lei dos marginais não foca a rotina de mafiosos e seu estilo de vida. É mais uma trama de vingança que envolve a criminalidade , mas mesmo assim não deixa de mostrar a essência da bandidagem, com mortes e traições que assim dificultam distinguir os vilões dos mocinhos.

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Sessão Cinerama: “Estrada para Ythaca”

Representando a efervescente cena cultural do Ceará, o Cinerama convida a todos para embarcar nos caminhos da Estrada para Ythaca, um filme realizado por Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Pedro Diógenes e Guto Parente. Inquieto, feito de maneira totalmente independente, é um cinema que sinaliza para diferentes formas de produção e se posiciona a favor da liberdade criativa e da invenção. Em contraponto, vamos exibir o curta-metragem A linguagem da persuasão, de Joaquim Pedro de Andrade, que atenta para a presença cada vez mais imperativa da publicidade em nossa sociedade. A entrada é gratuita e depois da sessão vamos bater um papo sobre os filmes, apareça!

ESTRADA PARA YTHACA (2010, 70min)
Direção, Produção, Roteiro, Fotografia, Som, Montagem:
Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes, Ricardo Pretti.

“Mantenha sempre Ythaca em sua mente.
Chegar lá é sua meta final,
Mas não tenha pressa na viagem.
Melhor que dure vários anos;
E ancore na ilha quando você estiver velho,
com todas as riquezas que você tiver adquirido no caminho,
sem esperar que Ythaca irá enriquecê-lo.
Ythaca terá lhe dado a linda viagem.
Sem ela você nunca teria partido,
E ela não poderia dar-lhe mais…
Tão sábio que serás, com todo conhecimento,
Já terás entendido o que significa Ythaca.”
Konstantínos Kaváfis

Prêmios:

• Melhor Filme – Júri da Crítica e Júri Jovem | 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
• Melhor Trilha Original | 20º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema
• Prêmio Filme Livre | 10ª Mostra do Filme Livre

A LINGUAGEM DA PERSUASÃO (1970, 11min)
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Reflexão sobre um mundo em que não existem refúgios, a existência é passiva, e os destinos são manipulados por indivíduos com habilidades para persuadir através de técnicas de propaganda e marketing. Esse documentário institucional, encomendado pelo SENAC, vai muito além de seu objetivo inicial devido a sua reflexão crítica sobre a sociedade brasileira dos anos 1970. A narração é do escritor Ferreira Gullar.

Dia: 28/03
Hora: 18h30
Local: Auditório da CPM – Escola de Comunicação/UFRJ, Campus da Praia Vermelha
Entrada gratuita

 

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* as exibições são no formato DVD

Sessão Cinerama: “Meteorango Kid, o herói intergalático”

“Só eu pra dizer o trabalho que me deu pra chegar até aqui.” E agora que chegamos, vamos curtir! O Cinerama convida todos para a exibição de Meteorango Kid, o herói intergalático, filme de 1969 realizado pelo cineasta André Luiz Oliveira. Um dos mais representativos exemplos do que se convencionou a chamar de Cinema Marginal, o filme mostra o desconforto do jovem Lula entre a alienação e a rebeldia, zanzando pelas ruas, fumando baseados, perdido entre discursos políticos e a opressiva moral burguesa ao som da ótima trilha composta pelos Novos Baianos. Anos antes um bandido havia sentenciado: quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba. Meteorango é o anti-herói do terceiro mundo, prestes a explodir!

A sessão será aberta pelo curta-metragem Salomé, de Fernando Gerheim, um exemplar do baixo surrealismo, cruzamento de Georges Bataille com Zé do Caixão. No fim da noite, haverá ainda uma conversa com Gerheim sobre os filmes e tudo mais que der na telha. A entrada é gratuita, apareça!

METEORANGO KID – O HERÓI INTERGALÁTICO
André Luiz Oliveira, 1969, 83min
Sinopse: O filme narra, de maneira anárquica e irreverente, as aventuras de Lula, um estudante universitário, no dia do seu aniversário. De forma absolutamente despojada, mostra, sem rodeios, o perfil de um jovem desesperado, representante de uma geração oprimida pela ditadura militar e pela moral retrógrada de uma sociedade passiva e hipócrita. O anti-herói intergaláctico atravessa este labirinto cotidiano através das suas fantasias e delírios libertários, deixando atrás de si um rastro de inconformismo e um convite à rebelião em todos os níveis.

SALOMÉ
Fernando Gerheim, 2010, 20min
Sinopse: Um exemplar do baixo surrealismo. Um cruzamento de Georges Bataille com Zé do Caixão. Cinema marginal digital. O defeito de fabricação da indústria dos sonhos. O vídeo pensa o cinema. Tecnoartesania ou morte.

Dia: 21/03
Hora: 18h30
Local: Auditório da CPM – Escola de Comunicação/UFRJ, Campus da Praia Vermelha
Entrada gratuita

 

As exibições são no formato DVD.

“Zabriskie Point”, de Michelangelo Antonioni

– Você realmente roubou aquela coisa? Por quê?

– Eu precisava sair do chão.

          A vida é cheia de som e fúria em Zabriskie Point, onde não há terno nem sobrenome e Antonioni pode ser visto baratinado, distribuindo zooms desnorteantes, ensandecidos, com o intuito de capturar o espírito de uma América igualmente atribulada. E aqui, por mais que apontem defeitos de lógica e insistam em cobrar coerência, é o espírito que me fascina: poucas vezes o cinema conseguiu ser tão rock’n’roll. As conseqüências da envergadura política e do espírito livre da obra fazem com que se mantenha acesa a chama da transgressão, do desejo, além de reanimar a pulsão de vida adormecida pela rotina que existe em nós.

              Acho quase impossível falar de Zabriskie Point sem soar hiperbólico ou repetitivo, mas cada vez que o vejo é como se a potência das imagens e do discurso acionasse uma descarga de energia e liberdade que me deixa com a cabeça fervendo, como se cada molécula do meu corpo estivesse numa dança descontrolada e feroz. O lugar representa o ponto geográfico mais baixo dos Estados Unidos da América, talvez por isso seja preciso alçar vôos estratosféricos, fugir de uma realidade sufocante e rarefeita para encontrar o sexo nas areias do deserto.

          A liberdade existe, ao longe, como uma velha lembrança envolta por uma nuvem de poeira, bastante desgastada pela burocracia e por outras opressões sociais. O mundo é um caos, mas Antonioni nos convida a explodi-lo. E quando um poeta resolve fazer barulho, é obrigação do universo se calar para ouvi-lo.

por Samuel Lobo

Orgia ou O Homem Que Deu Cria

por Samuel Lobo

      “Só me interessa o que não é meu”. A frase, escrita por Oswald de Andrade em 1928 em seu Manifesto Antropófago, descreve certeiramente a inquietação que perturbava a esfera artística brasileira em fins da década de 1960. Nas artes plásticas, Lygia Clark e Helio Oiticica propunham uma ressignificação da relação entre corpo e objeto; na literatura, José Agrippino de Paula espiava a transa entre Marilyn Monroe e Marlon Brando e construía uma epopeia genuinamente irônica, com aviões que sobrevoavam mares de gelatina verde; na música, a Tropicália mandava aquele abraço para a bossa nova e reorientava o carnaval, enquanto o cinema explodia as estruturas e matava à navalhadas a família brasileira. O horror. E quem disse que não há beleza no horror?

      Em meio a esse cenário nervoso, asfixiado por um governo militar que não permitia espaços e dopado por uma economia em ascensão e pela conquista do tricampeonato mundial de futebol, surge Orgia ou O Homem Que Deu Cria, único filme do cineasta e escritor João Silvério Trevisan, realizado em 1970. Já a partir do título se instaura uma provocação: em uma orgia não há regras nem limitações, tudo é permitido. Portanto, indiretamente, o que o título sugere é que estamos diante de uma obra livre, desimpedida, um cinema sem limites e contra todas as catequeses.

      Praticamente não há história. O enredo inicia-se com um homem do interior que assassina o pai e parte rumo à cidade grande. No meio do caminho vários personagens quixotescos se juntam a ele e compõem uma fauna riquíssima, tipicamente brasileira, onde convivem travestis, aleijados, caipiras, um cangaceiro grávido da Volkswagen e um anjo de asa quebrada, formando um microcosmo peculiar e ilustrativo da nossa miscigenação social em um momento de desespero. Aqui, para o bem e para o mal, tudo termina em carnaval.

      O filme é um ataque frontal a todas as estruturas pré-estabelecidas que paralisam o poder de criação e ao reducionismo que simplifica nossas complexidades. Até mesmo o próprio Cinema Marginal, ao qual se alinha em agonia e desejo de ruptura, é tratado como um obstáculo a ser superado. Logo no início, há uma cena em que Ozualdo Candeias, autor de A Margem (1967), considerado o primeiro filme de estética marginal, aparece sendo amarrado e morto pelo próprio filho. O novo Édipo, sem arrependimentos, livre.

      A posição ofensiva atravessa todos os aspectos da narrativa. Os atores estão em um transe que não cessa, gritam, correm, não respeitam nem mesmo a fronteira do quadro, num desarranjo total do corpo. Filmado inteiramente durante o dia, à luz do Sol, o filme encontra na contundência o tom ideal para romper com as tradições: há citações a Deus e o Diabo na Terra do Sol, a Macunaíma e a O Bandido da Luz Vermelha, todas subvertidas e reencarnadas sob o espírito do deboche e da avacalhação. A antropofagia é um elemento recorrente ao longo do filme, e o próprio desfecho, com índios comendo a criança que nasce do cangaceiro, já sinaliza um momento posterior ao do conceito lançado por Oswald: nossa fome é tanta que devemos devorar também a nós mesmos.

      Devido ao atrevimento de seu discurso e à sua encenação violenta, Orgia ou O Homem Que Deu Cria foi censurado pelos militares e nunca chegou a ser liberado. Ao trazê-lo novamente à tona, o Cinerama tem o intuito de promover o acesso a uma obra obscura do nosso cinema, instigar o espírito e acrescentar novos temperos a um farto banquete de pratos exóticos.